Os 50 anos da mini saia!

*Estou reproduzindo aqui no blog este artigo em homenagem aos 50 anos da mini saia. Ele foi originalmente escrito para o blog Moda de Subculturas, onde também citei a mini saia sendo usada pela cena alternativa. Aqui, coloco imagens históricas adicionais. Vamos lá!

Por alguns ela (ainda) é considerada vulgar, indecente e deselegante. Mas o fato é que ela já se tornou um clássico da Moda. Uma peça de roupa que incomoda tanto só poderia mesmo ter nascido e se firmado entre os rebeldes: a mini saia! Nós, que já nascemos acostumadas à elas, talvez não imaginemos o quanto as minis foram revolucionárias.

Uma breve história
Após a segunda guerra mundial, a chamada geração Baby Boomer vivia numa Londres de efervescência cultural e de mudanças de costumes. O rock n' roll, a psicodelia, a pop art e os hippies eram alguns dos movimentos que surgiam. A jovem inglesa Mary Quant (que completou 80 anos em 2014) é considerada a criadora* da mini saia. Mary era fã do carro "Mini" e por isso a saia recebeu este nome. Desde os anos 1960, devido à Swinging London, Londres é considerada a capital da cultura pop e da moda para o mundo todo!
* o francês André Courrèges, inventor do vestido trapézio, também é considerado um pioneiro da mini saia. Em 1965 ele lançou a "Mod Collection". Yves Saint Laurent e Pierre Cardin também fizeram coleções com a mini na mesma época.
Mary Quant diz que foram as próprias garotas de King's Road que inventaram a peça, que era fácil de vestir, simples e juvenil. Você poderia se mover livremente, pular e correr atrás do ônibus. Mary diz que apenas começou a fazer a barra na altura que as garotas queriam: bem curtas!
Mary Quant nos anos 60 e atualmente


 Mary Quant iniciou a produção em massa de seus modelos de saias e vestidos curtos.


Naquela época, havia todo este espírito libertário no ar, as mulheres revelaram seus joelhos e coxas pela primeira vez, o que foi visto como um sinal de rebeldia e emancipação.



Twiggy, modelo símbolo da Swinging London, viva com minis! O corpo magro entrou em voga para as mulheres da época para contrastar com os corpos rechonchudos de suas mães e avós. Um rompimento com as gerações anteriores consideradas antiquadas. Uma nova geração, novos hábitos, novo corpo!



Coco Chanel, uma mulher que em sua juventude foi à frente de seu tempo, quem diria, não aprovava as minis! Atualmente, a marca Chanel tem Karl Lagerfeld como diretor artístico desde 1983, e ele é um especialista em saias curtas. Karl cutuca, dizendo que Chanel, aos 80 anos, estava fora de moda e não entendia os anseios da nova geração! Outros dizem que ela não gostava de ver jovens no comando da Moda da época...


A Revolução
Antes da mini saia, a roupa era usada para esconder as mulheres de "apetites" masculinos, só que tais roupas não eram práticas e dificultavam os movimentos. A mini vinha como uma opção rápida e prática de se vestir, tornando a moda  mais divertida e decretando a morte da austeridade convencional.



Símbolo do feminismo da época, a mini saia, era uma forma de se rebelar, de reivindicar a sensualidade e a sexualidade. Isso, é claro, desagradava os pais das garotas que as proibiam de usá-la Mas não tinha jeito, elas simplesmente pegavam seus vestidos e os cortavam!
A mini era algo tão novo que quando a peça  chegou aos Estados Unidos não havia um mercado pronto para recebe-la, mesmo assim, a juventude americana estava igualmente fascinada e ansiosa pela liberdade, buscando roupas menos rigorosas e uma elegância ousada.


A saia chegou a ser proibida em países como a Holanda, houveram protestos contra ela na França. Mas também houve protestos de mulheres exigindo o direito de usá-las! Uma peça que ganhou comoção popular porque mostrava um pouco mais do corpo feminino, sempre considerado um "objeto" a ser resguardado, já que os velhos hábitos diziam para as mulheres se vestirem de modo "decente", afinal elas passavam de ser propriedade dos pais para logo a seguir serem dos maridos. Demorou uns bons anos pros tabus caírem, a revolução de maio de 1968 ajudou nesse processo.


A Mini saia hoje
Pelo fato de ser curta, muitos a associam à vulgaridade, o que de certa forma não é certo. A vulgaridade (assim como a elegância) é muito mais ligada à gestos e atitudes do que à uma peça de roupa específica.
Se nos anos 60, os corpos magros rompiam a geração baby boomer com a de seus pais, atualmente já está mais do que provado que todos os tipos de corpo podem usar a peça, mesmo as mais gordinhas, quanto mais curta uma saia, mais alonga as pernas e consequentemente provoca uma ilusão de ótica de a pessoa ser mais magra e alta do que realmente é.
Usada com leggings ou meias calças, torna-se uma peça menos sexy e ousada, ao mesmo tempo que simboliza uma ambiguidade: liberdade + repressão.
Nos dias de hoje, por ter se tornado uma peça clássica, já perdeu muito de suas conotações originais, se tornou uma peça ambivalente e até mesmo de militância, já que as mulheres querem ter direito de usar a roupa que quiserem sem serem julgadas ou atacadas. 

Fontes pesquisadas: 
Documentário- Minissaia uma história curta
A Roupa e a Moda
História do Vestuário no Ocidente.

Analisando Quadro: A Caçada na Corte de Filipe o bom (século XV) - Os Vestidos Disfarçados

Hoje vamos analisar as roupas do quadro "A Caçada na Corte de Filipe o bom" de cerca de 1442.

Observem a pintura, por que todos estão de branco?

A resposta é extremamente simples: porque a cor branca foi um tema imposto para a festa!
Mas não se trata só disso.
Essa obra nos mostra os chamados "Vestidos Disfarçados" ou robes deguisées.

Os robes deguisées eram trajes que destoavam do padrão de moda vigente (por isso "disfarçados"). No quadro, as roupas são anteriores às roupas usadas na década de 1442 [veja como era a moda deste século aqui]. Se repararem, as roupas recebem referências que variam de de pouco mais 20 à 100 anos antes [aqui]. Os homens usam batas curtas com pregas abauladas. Há mantos inspirados na moda italiana. Vários deles usam chopines.

No centro, a duquesa tem um manto acolchoado de arminho. Como outras moças, seu penteado tem enchimentos postiços trabalhados, coberto com uma coifa de rede e miçangas. Várias outras mulheres usam capelo sobre redes. No centro, uma moça usa o capelo clássico fechado com um alfinete logo abaixo do queixo.



Repare numa mulher, no segundo plano, à esquerda. Ela usa luvas vermelhas e gola alta, ambas algo bem raro na época. Outras mulheres também usam um cinto alto, trabalhado.

Aproveito a deixa pra que seja observada outra coisa: repararam que apenas uma mulher à esquerda do quadro, na frente, levanta a cauda do vestido?

As mulheres da classe alta medieval e renascentista usavam vestidos com longas caudas, era uma forma de mostrar riqueza em tecidos ou enfeites suntuosos, o que servia pra as diferenciar das classes inferiores. Pois bem, estas mulheres eram ensinadas a andar desde muito novinhas com saias excessivamente longas e eram capazes de levar coisas, subir escadas e fazer as atividades diárias sem nunca levantar suas saias.
Já as mulheres de classe baixa, normalmente trabalhavam, e longas caudas atrapalhariam suas atividades, por isso as saias das classes mais baixas eram mais curtas e não tinham caudas. 
O fato da moça em questão estar levantando a cauda do vestido, é algo muito incomum (já que não há uma saia de baixo adornada pra ser mostrada) e pode ser uma alusão ao pregnancy look.
Não é interessante encontrar uma festa medieval cujo tema revivia de forma misturada moda de entre 20 e 100 anos antes?

Fonte da imagem: História do Vestuário no Ocidente.

A Rainha Victoria e o vestido branco de noiva

Carregamos ainda hoje, no século XXI, muitas heranças sociais e culturais da Era Vitoriana (século XIX), uma delas é o vestido branco de noiva. Sem fugir dos posts clichés habituais do mês de maio sobre noivas e casamentos, apresento uma história muito breve sobre o tema em questão.

A Relação entra a Rainha Victoria e os vestidos de noiva brancos

O vestido de noiva nem sempre foi branco. Embora tenha-se usado branco durante diversas épocas da história, a cor não era uma regra, era uma opção e em alguns casos, diferenciação social, já que a cor mostrava a sujeira, se tornando assim, um símbolo de statusO vestido de casamento já  foi verde, vermelho e já foi apenas um vestido novo, que seria usado normalmente depois da cerimônia.
A cor branca em nossa cultura ocidental carrega um sinônimo de pureza e tranquilidade. 

Hoje, temos o pensamento de que noivas "devem usar branco", mas muitos não sabem dizer o porquê. Não sabem dizer de onde vem esse costume. Esse hábito é muito mais por herança cultural do passado, do que por qualquer um outro motivo. Se fôssemos seguir as regras certinhas, usar branco por "pureza ou virgindade" na sociedade atual, faria  boa parte da população se casar de outras cores. E dizer que é a religião ou a igreja que sempre exigiu o branco também não está históricamente correto, já que na Espanha do século XVI o vestido de noiva deveria ser preto por obediência à Igreja.

Em 1840, a rainha Victoria se casou por amor com o Príncipe Albert com um vestido branco. Na época, Victoria escolheu o branco porque era uma cor não usada pra casamentos - era uma cor incomum, ela quis fugir do padrão. O motivo da escolha também foi uma questão política: devido ao desenvolvimento industrial, as rendas agora eram bordadas em máquinas, os artesãos estavam ficando sem emprego, assim, a rainha colocou um exército de artesãs trabalhando pra ela por meses.


Além da cor do vestido, outra moda que Victoria lançou foi o uso do véu e do buquê de flores brancas miúdas. As mulheres a imitaram. Victoria reinou durante todo o século XIX, numa época considerada super conservadora.

Esse foi o vestido branco usado por ela em seu casamento em 1840:


Reparem que o vestido da rainha, no estilo da moda da época, é meio que até hoje a referência dos vestidos de noiva, quando dizem "quero me casar com vestido de princesa": corpete, saia armada, véu e rendas.

Então se hoje se diz que as noivas "devem usar branco" não é exatamente porque elas "devem", é muito mais porque ainda carregamos heranças culturais do passado que ainda não foram rompidas ou substituídas. A personalidade da Rainha Victoria era tão forte que nos influencia ainda hoje.


A Fotografia de Jacques Henri Lartigue (de 1906 a 1929)

Registros fotográficos são a melhor forma da gente ver como eram as roupas antigas de fato no corpo das pessoas.
Jacques Henri Lartigue (1894-1986) foi um pintor e fotógrafo francês que adorava clicar a moda e as modelos francesas. Atualmente o Instituto Moreira Salles em SP está com uma exposição sobre ele que vai até maio, visitem o site da expo, para informações: http://www.lartiguenoims.com.br/

Tentei colocar as fotos mais ou menos numa ordem cronológica, começando com a década de 1900, depois 1910, 1920... Como nem todas as imagens tinham data pode ser que alguma esteja fora do lugar ;-)
As fotos menores podem ser ampliadas, basta clicar nelas.

 
  
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