Século XIX: A Roupa Estética e da Reforma (Pré-Rafaelitas)

Em períodos altamente patriarcais como meados do século XIX, o historiador de moda James Laver observou que os trajes femininos e masculinos tendem a ser claramente diferenciados, e quem adotar em público a roupa do sexo oposto será considerado revoltante e repugnante. A campanha de Amelia Bloomer na década de 1850 para a peça que levou seu nome fracassou totalmente, foi recebida com zombaria e ostracismo social. Trinta anos depois quando surgiram as primeiras reformas no vestuário feminino, elas não consistiam de uma imitação do vestuário masculino e sim, suavizavam os aspectos mais inconvenientes e desconfortáveis da moda feminina.

A Roupa Estética e da Reforma da década de 1880, obedeceu aos estilos contemporâneos. Vestidos mais folgados, sem muitos adornos, na época eram considerados revolucionários.
A roupa estética também se preocupava com o que a mulher vestia por baixo (como veremos abaixo). Radicais recomendavam o abandono do espartilho, contudo os estétas simplesmente achavam que a peça deveria ser remodelada para promover o suporte necessário (lembram do post onde explico as funções do espartilho?) sem a constrição excessivamente rígida da cintura. A introdução de ceroulas saudáveis (drawers) de lã ou algodão ofereciam à mulher mais proteção contra o clima. Apenas uma minoria da população feminina adotou o vestido reformado. E a maioria destas era composta de intelectuais, socialistas e boêmias da classe média.

O Início
O artista Dante Gabriel Rossetti fundou junto com John Everett Millais e William Holman Hunt, em 1848, a Irmandade Pré-Rafaelita. Através do revivalismo romântico eles produziam arte de vanguarda. Desenhavam vestidos destinados inicialmente como figurinos para as assistentes em suas pinturas, estes foram gradualmente adotados por um grupo mais amplo de mulheres como suas esposas, filhas e pessoas ligadas ao círculo de amizade. Estas pessoas usavam roupas inspiradas na Era Medieval em casa e em público. Esta contracultura de artistas e escritores, era contra o que eles viam como a desumanização provocada pela era Industrial. Para eles, a rigidez das roupas e espartilhos vitorianos eram desinteressantes e artificiais. A moda mainstream se opunha à esta moda alternativa e zombava dos pré-rafaelitas e de sua forma “estranha” e menos formal de se vestir.

Obras de Dante Gabriel Rossetti (as mulheres idealizadas do movimento estético, eram altas, ruivas ou com cabelo escuro,  de pele clara, queixos fortes e olhos tristes)

Obras de John Everett Millais (bastente influencia renascentista e medieval)

Obras de William Holman Hunt (referências orientais e renascentistas)


Industrial x Artesanal
A Grande Exposição de 1851 em Londres, apresentou aspectos da Revolução Industrial como a energia a vapor, a indústria e a produção em massa. Os Pré Rafaelitas acreditavam que a perda do artesanato e de bens criados individualmente não beneficiariam a sociedade. Assim, eles viam a sociedade como rígida e obcecada por uma falsa aparência de respeitabilidade. Como resultado, a Irmandade Rafaelita defendia uma cultura que dependia de bens artesanais e roupas com base nos estilos do final da Idade Média, pois as roupas medievais eram simples, elegantes e bonitas. Muitos dos estétas eram vegetarianos ou defensores dos direitos animais, tanto que se opuseram ao uso de penas e de aves mortas inteiras em chapéus (moda na década de 1880).
O movimento estético era frequentemente parodiado e ridicularizado pela mídia. Vários membros do grupo foram criticados por defenderem salários justos e melhores condições de trabalho nas indústrias.

William Morris, tinha profunda apreciação dos ofícios finos que foram produzidos individualmente no final da Idade Média por artesãos. As fábricas têxteis de meados do século XIX destruíram a carreira de tecelões qualificados e se apoiavam em trabalhadores mal pagos, não qualificados, que trabalhavam em condições muitas vezes deploráveis. Morris opôs-se à utilização das novas tinturas de anilina que, por meados do século, substituiu os antigos corantes orgânicos que utilizavam substâncias vegetais e minerais. Os novos corantes de anilina eram, segundo Morris, cores horríveis e berrantes, enquanto as tintas orgânicas produziam tons  mais sutis. 

Algumas estampas criadas com tintas orgânicas por William Morris


O Vestido Estético
O Vestido Estético (ou roupa estética) também pode ter sido uma repulsa à utilização excessiva da máquina de costura que permitia o embelezamento exagerado dos vestidos vitorianos. Muitas vezes os Vestidos Estéticos eram enfeitados apenas com grandes girassóis, narcisos ou outras formas orgânicas trabalhadas em arte bordada. Os tecidos eram tingidos com corantes naturais em matizes índigo, salmão, verde, terracota, âmbar ou azul. Não eram influenciados somente pela era medieval e pela renascença, também absorviam  elementos gregos, romanos, georgianos, do Extremo Oriente, Oriente Médio e estilos japoneses. 

No quadro abaixo é possível ver o contraste da moda vitoriana vigente com os trajes do estétas. Duas garotas juntas à esquerda - uma de amarelo e outra de verde - e uma terceira de verde de costas, usam vestidos artísticos simples, sem bustle, sem cintura fina, adornados apenas com pregas ou flores. 
Há também uma garota à direita - de vestido rosa, usando um vestido com prega Watteau nas costas, o homem perto dela, de cartola e cravat vermelho é Oscar Wilde.



Roupas
O vestido estético oferecia mais liberdade de movimento do que a moda em vigor na Inglaterra Vitoriana. Em vez de espartilhos rígidos, as mulheres usavam corpetes, vestidos fluidos, com pregas suaves. A cava das mangas eram no lugar “normal” contrastando com o ombro caído da moda vitoriana que restringia os movimentos dos braços. As mangas eram muitas vezes bufantes nos ombros e ajustadas no braço. Alguns vestidos tinham a parte de trás imitando as pregas Watteau, presas no topo das costas e caindo até o chão.
Poucos acessórios eram usados, jóias com âmbar eram muito populares, assim como jóias inspiradas no oriente.

 Vestidos com cava no lugar "normal" permitiam melhor movimento dos braços

 Influência greco-romana e oriental nos trajes

Vestidos com prega "watteau", uma prega usada nos vestidos do século XVIII



Alguns Ícones do Movimento Estético
Jane Morris, esposa de William Morris, era o oposto dos ideais femininos vitorianos: nasceu pobre, era alta e tinha cabelos escuros. Ela era a personificação perfeita do Movimento, com cabelos encaracolados, desgrenhados, vagamente presos para atrás.


Elizabeth Siddal era modista, se tornou modelo e poetisa. Tinha cabelos vermelhos, pescoço longo, olhos grandes e expressivos. Foi ela quem posou para a famosa obra “Ophelia”, deitada em uma banheira de água fria, o que lhe rendeu um caso grave de pneumonia. 


Emilie Flöge, companheira do pintor Gustav Klimt, teve alguns de seus vestidos desenhados pelo próprio artista. Emilie não usava espartilho e gostava de vestidos de forma solta. Notem a semelhança de alguns de seus trajes do começo do século XX com as roupas usadas pelos hippies na década de 1960.

 
Oscar Wilde, famoso autor de “O retrato de Dorian Gray”. O estilo de Wilde é amplamente reconhecido como  a moda masculina do movimento estético. Cabelos lânguidos, jaqueta e calções de veludo, chapéu de abas abertas, calças ao estilo turco, gravatas com o nó solto. Wilde era uma das figuras centrais do Movimento e foi muito ridicularizado, mas entendia sobre o poder de se comunicar através da aparência.


Charles Dodgson, também conhecido como Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, também era entusiasta do Movimento.



Liberty of London
Arthur Lasenby Liberty abriu sua loja Liberty & Co, em 1875, introduzindo tecidos importados e artefatos incomuns, atraindo artistas como George Frederick Watts, James Whistler e Frederick Leighton. Liberty produzia tecidos adequados ao clima Inglês inspirado por desenhos orientais e medievais. Em 1884, abriu um departamento de costura, dentre as clientes estava a famosa atriz Ellen Terry. Ellen adorava vestidos estéticos!
Arthur Liberty conseguiu convencer fabricantes britânicos a reviver algumas das técnicas de tingimento persas e usar desenhos orientais, bem como a introdução de novos projetos estéticos. Os tecidos podiam ser pintados à mão e os eram produzidos no departamento de costura da empresa.

Arthur Liberty e alguns vestidos criados por ele

O Fim do Vestido Estético
Como muitos movimentos radicais, o vestido estético chegou ao mainstream. Na década de 1880, já havia uma revista dedicada aos ideais do movimento, a Jenness Miller Magazine

Anúncios e artigos na Jenness Miller Magazine falavam sobre corselets que podiam substituir espartilhos e roupas de baixo mais confortáveis.


Com a chegada da estética ao mainstream, o movimento estético não era mais um conceito revolucionário e desapareceu lá por 1900, sendo substituído pela Art Nouveau, de ideais semelhantes na estética das artes e ofícios. E inspirou estilistas do fim do século XIX e começo do XX como Mariano Fortuny e Paul Poiret. Poiret é considerado o estilista que liberou as mulheres do espartilho e criou coleções de influência oriental que moldaram a moda da década de 1910. Como podemos ver, é possível que sua amizade com membros do Movimento Estético, tenham influenciado suas criações, já que as mulheres estétas já não usavam espartilhos.


O Legado do Vestido Estético
Como deu os primeiros passos rumo à roupas mais soltas para as mulheres, o Movimento Estético deixou como legado o surgimento dos "vestidos de chá". Eram vestidos mais leves e que podiam ser usados sem espartilhos para as mulheres vitorianas que queriam receber amigas em casa e ficar mais à vontade, livres das restrições de camadas excessivas de roupas e mecanismos como o bustle



Leia também:
Historicismo na Moda (Parte 1) 
Historicismo na Moda (Parte 2)
A Primeira Fotógrafa de Moda Lady Clementina Hawarden
Século XIX - Parte 2: A Moda na Era Vitoriana
O Homem Vitoriano e sua barba
Mulheres Vitorianas 
Fashion Plates brasileiras da década de 1910

Vestido Feminino da Era Império (molde)

Há uns dois anos atrás disponibilizei em meu blog sobre Moda Alternativa o molde de um vestido da era Império e vou repostá-lo aqui porque o Picnic Vitoriano SP divulgou seu calendário de eventos para 2014 e o único evento com dresscode mais restrito que eles fazem é Chá das Cinco que acontece no fim do ano. O Chá terá como tema o período do Império Napoleônico
Durante todo este ano postarei sobre a moda desta época para auxiliar os que querem participar do evento.
A moda feminina da Era Império é bastante adequada ao nosso clima e os vestidos são bem simples (post sobre a época). Eles eram muito finos, leves e as mulheres usavam nos pés sapatilha ao estilo bailarina. Sombrinhas, longas luvas, leques e bonnets eram os acessórios.
  • Estes são dois exemplos de vestidos femininos da época:

Abaixo, uma scan da página de um livro que apresenta um molde muito semelhante aos dos vestidos acima.
* Fico devendo o nome do livro, eu peguei a imagem no google books há algum tempo e esqueci de salvar o nome. Mas assim que eu identificar atualizo aqui.

Eu gosto deste molde, porque tem as medidas junto aos desenhos. Fiz umas anotações em roxo indicando de que parte da roupa é cada molde.
Podem observar que é muito simples. As roupas desta época são das mais fáceis de se fazer. Se vocês não sabem modelar, levarem a imagem pra uma modelista ou uma boa costureira, ela provavelmente vai saber reproduzir no seu tamanho. As medidas estão em inches, tudo o que vocês precisam fazer é converter inches para centímetro. Cada inche equivale a 2,54cm. Assim, onde diz 6" (inches): 6x2,54= 15,24cm.
Se você quer tentar fazer a modelagem, não esqueça que depois pode ser necessário fazer pequenos ajustes nas medidas (adequando à seu corpo).

 




A Moda Feminina de 1750 a 1780

A moda feminina se multiplicou rapidamente a partir de meados do século XVIII. Os estilos ingleses eram populares e tiveram impacto considerável nos trajes franceses assim como as influências vindas do oriente.

Vestido de Corte (robe de cour)
Recebeu esse nome por ser associado à corte de Versailles. Na corte de Louis XVI (1774-1792), os trajes eram extravagantes, reflexo do excesso da vida aristocrática que culminou com a  a Revolução Francesa em 1789.
Populares a partir de 1750, os vestidos de corte perduraram como traje formal feminino até a Revolução. Também chamado de grand habit, é um robe à la française feito de tecidos luxuosos, ricamente ornamentado, com corpete rígido de decote levemente oval, amarrado atrás e terminando numa ponta bastante acentuada na cintura. A saia, ricamente ornamentada é usada sobre um grande panier, terminando num barrado e com uma possível cauda. O corpete e a saia são sempre do mesmo tecido (isso caracteriza o robe à la française) e um bordado simula o stomacher. No vestido de corte, os paniers alcançaram amplitudes extremas, chegando à 3,60 metros lateralmente. Com variantes em cada país, essa traje é usado em toda Europa.



Os Estilos Ingleses (estilos à l'anglaise)

O entusiasmo pelos estilos ingleses na França começou nos últimos anos do reinado de Louis XIV (1643 - 1715) e pegou mesmo em 1755. Devido à moda do esporte e da equitação, as pessoas vão se entusiasmando com os trajes ingleses simples, confortáveis e práticos. 

Como era na Inglaterra?
Na  Inglaterra estava havendo um interesse por comodidade, esportes e um gosto pelo campo. Embora a França ditasse moda, as inglesas elegantes tinham uma interpretação diferente da moda francesa. As inglesas preferiam vestidos mais justos, um exemplo é o sack dress cujas pregas nas costas, na Inglaterra, foram logo modeladas.
As inglesas também gostavam de usar as saias em tecido acolchoado (matelassê) e mantilhas de renda preta sobre os ombros ou fichus enfeitados com laço de fita e presos com jóia. Os cabelos das inglesas não eram empoados e em cima da touca eram usados chapéus de palha conhecidos como champignons ou bergère, moda desconhecida na França. Os trajes ingleses são em tecidos simples, com pouco enfeite, em algodão ou musselina e suas versões na França, costumam ser em sedas.

 
O vestido inglês (robe à l'anglaise)
O que caracteriza um robe à l'anglaise é especialmente o recorte das costas do corpete. O corpete era justo, com barbatanas nas costuras, mas bem mais leve que o super estruturado estilo francês. A frente do corpete tinha um decote profundo normalmente coberto com um fichu de linho (um triângulo de tecido envolto nos ombros e pescoço preso no decote) e formava uma ponta no centro das costas, encontrando uma saia costurada junto à ele que tinha uma fileira de pequeninas pregas nos quadris terminando numa pequena cauda atrás. A saia era suportada não por um panier mas por simples rolls/hips/bumpads  e se abria amplamente na frente sobre uma anágua ou saia de baixo que podia ou não ser do mesmo tecido do vestido (lembram que o robe à la française, a saia de cima é sempre igual à saia de baixo?).
Por volta de 1765, os stays cônicos se flexibilizaram e em 1768, os robes à l'anglaise são recomendados até mesmo para bailes e o robe à la française ficaria reservado para cerimônias. Sendo assim, o vestido inglês se torna uma peça do cotidiano. 
Eu confeccionei um robe à l'anglaise seguindo o molde original da época, vocês podem ver o resultado aqui: robe à l'anglaise: referências e finalização



Vestido redondo (round gown)
É uma variação do robe à l'anglaise, mas a saia e a anágua são uma só, sendo uma saia fechada.



O redingote (riding coat)
Outro estilo inglês era o redingote, desenvolvido do hábito de cavalgada e popularizado na Europa continental depois das primeiras corridas de cavalo em Paris. A peça tinha um corpete ajustado, com grandes botões, lapela, gola dupla e às vezes com a frente cruzada como um sobretudo masculino. A saia podia ser fechada ou aberta pra revelar a anágua. Havia diversas variantes da peça. Era normalmente usado com um imenso chapéu com pena, também de origem inglês. 


Curiosidade: O chapéu não era um acessório corriqueiro na moda francesa e é aí que entra outra influência da moda inglesa, que gerou na França o surgimento dos coiffeurs e dos marchands de moda, criadores de barretes e chapéus imensos que logo entrariam em voga.

Peliças
Durante todo o século, as roupas de pele estiveram em voga, caracterizadas por nesgas com bordas de pele pra passar o braço.



As influências do leste europeu

A partir de 1775 surge uma sucessão de modas ininterruptas, como: à circassiana, à levita, à levantina, à turca, à sultana... originadas por causas diversas, desde políticas, pelo sucesso de retratos turcos, pelas viagens de mulheres dos embaixadores exibindo toaletes orientais ao retornar à França e especialmente pelos figurinos de teatro. Por exemplo, a primeira ideia do vestido à levita (explicado abaixo) veio dos trajes criados para a apresentação Athalie no Théatre Français, que eram inspirados no traje sacerdotal judaico. Listarei alguns exemplos destas modas:


Vestido à Polonesa (robe à polonaise)
Um dos estilos particularmente populares na corte francesa, era um estilo chamado "à la polonaise" - significa "no estilo polaco" (mesmo que esse estilo nunca tenha sido usado na Polônia). Digamos que a característica principal era o corpete ser "afivelado" em cima do busto e ser justo nas costas. A saia de cima era franzida na altura dos quadris e era repuxada atrás por cordões em três painéis de tecido arredondados, curtos nos lados (asas) e longo atrás (cauda).  O vestido era bem curto, algumas vezes chegando até os tornozelos. Tinha mangas lisas que costumavam terminar acima do cotovelo, numa forma conhecida como en sabot, com punho de gaze ou de tecido.


Vestido à circassiana (robe à circassienne)
É uma variedade do à polonesa, do qual difere por suas mangas curtas que deixam passar a manga longa da sobreveste de baixo.



Vestido à levita (robe à lévite)
É um vestido reto segurado na cintura por uma grande echarpe cujas pontas caem sobre a saia de cima. 



Vestido à levantina (robe à levantine)
Vestido tão confortável que exige poucos preparativos pra vestir ou tirar. É um vestido de mangas curtas vestido sobre uma veste de mangas longas, preso no peito e a saia, aberta na frente, podia ter pregas atrás. 



Vestido à turca (robe à la turque)
Apareceu pela primeira vez no Palácio Real em 1779. É como um vestido-casaco, o corpete de cima é bem justo, costurado ao corpete de baixo, assim como as mangas curta e comprida são juntas. É sem muitos enfeites, com uma gola que cai dobrada, e com uma grande faixa atada na cintura. A saia é aberta e cortada reta (como a do robe a l'anglaise). A parte de trás poderia ter pregas ou um bufante semelhante ao do polonaise. 



Vestido à sultana (robe à sultane)
Inteiro aberto na frente, de mangas curtas ou compridas, caracterizava-se basicamente pelo contraste de cores entre as partes das roupas.




Vestidos Simples
Entre 1778-1779, os vestidos en chemise entram na moda.

Vestido chemise, gaule, à la creole ou chemise à la reine
Um vestido en chemise é uma peça enfiada no corpo pela cabeça ou pelos pés. É usado com um corpete leve ou sem corpete, de mangas curtas ou compridas, com cintura normalmente alta, decote livre em torno do pescoço "ao estilo de uma chemise", cintado por uma echarpe e feito de gaze de seda sob um fundo de tafetá ou musselina. Pode abrir-se sobre uma saia leve. O retrato de Marie Antoinete pintado por Mme. Vigée-Lebrun usando um vestido chemise junto com um chapéu de palha foi um escândalo como podem ler no post: Visuais que chocaram épocas



Forreau ou falso vestido
Este vestido foi uma reação contra os stays com barbatanas. É um vestido de uma só peça com o corpete  amarrado atrás e a saia franzida e fechada na frente. Um cinto de fita em cor viva é amarrado na cintura. 
Essa peça era usada pelas crianças inglesas desde meados do século e foi adaptada para mulheres adultas consolidando-se em 1781, no inicio do período revolucionário em razão de sua simplicidade, pois é usado sem os stays e sem panier. É chamado de "falso vestido" por ser uma novidade, ser um vestido "fechado", ou seja, "vestido" são peças abertas sobre uma saia ou anágua.
É confundido com o chemise, mas o chemise tem cintura alta e pode ter saia aberta; já o forreau tem sempre a saia fechada, cintura "normal" e corpete de ponta.


* Existem alguns outros estilos de vestidos não citados nesta postagem. Embora haja alguma iconografia sobre eles na web, não encontrei nos livros e fashion plates definições seguras sobre o que os caracterizava, então, é possível que os aborde futuramente, quando eu estiver mais segura quanto às características principais deles.


Négligées

A partir da regência surgem roupas simples com a forma do vestido em uso no momento.
 Négligé é um traje informal, são pequenas vestes caindo sobre os quadris, mais ou menos ajustadas na frente e folgadas nas costas. Entre 1775-1780, a peça ganha alguns nomes de acordo com o estilo em que é cortado. As nomenclaturas são:

- corte ao estilo do robe à volante: casaquin 

- corte ao estilo do robe à la française/polonaise: caraco. Este tem basques nas costas (pierrot/juste).

- corte ao estilo do redingote: veste


A Moda Espanhola e Italiana no século XVIII
 Vale a pena abrir um espaço pra falar das peculiaridades das modas destes dois países.

Espanha
Enquanto a maioria das classes altas européias copiavam as modas francesas, a moda espanhola variou ligeiramente a partir de meados do século. As espanholas usavam seus vestidos de uma forma mais curta, com pés à mostra, sem paniers e com caracos. Ou seja, trajes bem mais leves que na França, muito comumente vistos nas obras do pintor Goya. Elas adicionavam xales em cores brilhantes e vestiam a tradicional mantilha espanhola, uma especie de véu de renda preta ou branca suportado por um pente tartaruga (tortoiseshell comb) nos cabelos.



Itália
Na Itália, sobretudo nas cidades de Veneza, Milão, Florença, Roma e Nápoles, o robe à la française é o mais usado, mas lá ele é chamado de andrienne. Em Veneza, para sair, veste-se uma capa curta, a tabarrino e a bauta, uma semi máscara branca enfeitada com um babado de renda preta. A mascara preta redonda é a moreta. As damas de da nobreza de Veneza e Gênova usavam muito a cor preta.


Leia mais sobre o século XVIII:
A Moda Masculina de 1700 a 1770
A Moda Feminina de 1700 a 1750

A Moda Masculina de 1770 a 1789
Existe diferença entre a Moda Georgiana e a Moda Rococó?
Robe a L'Anglaise, Parte 2: Referências e Finalização
Cabelos em tom pastel no século XVIII

Fonte de Pesquisa da autora:
História do Vestuário no Ocidente
The Eighteenth Century
A Roupa e a Moda

A Moda Masculina de 1770 a 1789

As roupas masculinas mudaram muito lentamente no século XVIII. França e Inglaterra lideravam tanto na moda masculina quanto na feminina.
Leia também: 
A Moda Masculina de 1700 a 1770
A Moda Feminina de 1700 a 1750
Existe diferença entre a Moda Georgiana e a Moda Rococó?

O perfil masculino afinou durante as últimas décadas. Os brocados extravagantes do começo do século deram lugar a tecidos mais finos em cores lisas ou em listras e os adornos lentamente desapareceram até o fim do século. A casaca ficou mais justa e as pontas da frente se abrem ainda mais. O colarinho é reto, as mangas são abotoadas. 


 A influência da moda campestre inglesa simplificou os trajes masculinos do fim do século XVIII (década de 1770):


O colete terminava em duas pontas de cada lado do abotoamento frontal e aos poucos essa ponta foi encurtando, até que se tornaram retas na cintura. A peça passou a não mais ser abotoada da gola à bainha.

O colete ganha pontas retas na cintura e não mais é abotoado até o pescoço
Podemos ver dois modelos de colete em voga, o antigo, com pontas bem bicudas e o novo modelo com pontas cada vez menores.

Os "exageros" permanecem apenas no traje de corte, composto de casaca, colete e calça em tecidos luxuosos e frequentemente realçados por babados misturados a fios de ouro ou prata, paêtes metálicos e vidros coloridos.
O chapéu à Androsmane cuja terceira ponta é fechada por uma dobra da aba anterior prefigura com sua forma alta e alongada.

chapéu à Androsmane

O Frock Coat.
Com as laterais se afastando da cintura, o casaco se manteve longo nas costas caindo em três partes com duas aberturas. Baseado nas roupas inglesas de montaria este design foi chamado de frock coat ou redingote e influenciou também a moda feminina.
Curiosidade: Nos primeiros anos do século XIX, as aberturas das costas se fecharam e a saia caiu em cauda. Essa foi a origem do fraque, usado até hoje formalmente para casamentos e bailes.

As costas com duas aberturas, futuramente originariam o fraque.

Macaronis
Enquanto os homens abandonavam lentamente os adornos desnecessários influenciados pela moda inglesa, havia um grupo de jovens que, ao contrário, queriam o exagero absoluto. Eles são referidos como Macaronis e apareceram entre as décadas de 1770 e 1780. Eram jovens ingleses que adotaram a alta moda da França e Itália. O estilo deles era espalhafatoso, exagerado, super ornamentado e frívolo. Usavam altíssimas perucas empoadas, pequeninos chapéus tricórnio e ramalhetes de flores. Eram vítimas de muitas piadas e caricaturados de forma agressiva. Escandalizavam pelo fato de serem obcecados pela moda em primeiro lugar. O século XVIII foi o período em que a moda se tornou de gênero e eles estavam destruindo esta regra. Por uma variedade de razões, naquela época, a palavra "Moda" se tornou um assunto de mulher. Ao se envolver com  a alta moda, eles estavam usando a moda como as mulheres usavam, o que foi muito escandaloso.
Leia mais sobre os Macaronis no post: Visuais que chocaram épocas.

Macaroni: Caricarura

De perucas à cabelos reais
No fim do século XVIII, as perucas foram descartadas por muitos homens em favor de um cabelo "selvagem", despenteado. O chapéu tricórnio, que se tornou menor e menos ornamentado desde meados do século, foi abandonado na Europa; no lugar dele foram usadas as primeiras cartolas.

Casaco, colete de barra reta, culotes, meias listradas e um chapéu de copa alta, que originaria as cartolas:


Culotes (breeches) 
Os culotes se tornaram mais ajustados no fim século XVIII.

Nestas fotos da década de 1780, é possível ver como as roupas se simplificaram e a silhueta afinou, inclusive com os culotes ficando bem justos.
 

O traje escocês
Vale a pena abrir um espaço pra falar do "kilt", surgido no século XVIII. 
Documentos antigos mostram que os escoceses usavam uma peça retangular vestida por cima da roupa. Esta peça, com listras entrecruzadas, foi enrolada na cintura e a ponta jogada por cima do ombro, sendo combinada com túnicas, coletes e calças curtas. Era uma roupa aristocrática e a disposição das listras entrecruzadas se tornou o xadrez dos clãs escoceses (uma espécie de brasão). 
Em 1720, o kilt foi registrado pela primeira vez. A peça retangular citada acima (conhecida hoje como great kilt) foi cortada, a parte de baixo enrolada em torno da cintura e presa com um broche e a parte superior se tornou uma echarpe independente. Posteriormente os highlanders adotaram este traje como uniforme militar.

Os primórdios do Kilt, em 1734.

Curiosidade: um alfaiate chamado Dartigalongue anunciava em 1770 que era possível comprar em sua loja roupas todas prontas, de todos os tamanhos. Era a primeira idéia da moderna confecção pret à porter.

Fonte de Pesquisa da autora:
História do Vestuário no Ocidente
The Eighteenth Century
A Roupa e a Moda

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