Vestuário Alternativo Feminino no século XIX

O vestuário feminino usado no século XX, deriva dos estilos das mulheres da classe média e operária cujo comportamento não correspondia ao ideal feminino da elite vitoriana.

A industrialização retirou as mulheres de classe média e alta da participação ativa na economia, o ócio aristocrático era considerado a atividade apropriada para elas.
Embora sejamos bombardeados das lindas imagens dos trajes da elite vitoriana, um outro estilo, "alternativo", coexistiu  e foi largamente adotado, mas pouco falado. Ele incorporava ítens do vestuário masculino esportivo inglês como gravatas, chapéus (cartola, coco, palha, fedoras), paletós, coletes e camisas, isoladamente ou combinados entre si, mas sempre usados juntos com peças femininas da moda.

 Não encontrei fotos do vestuário alternativo na web, então escaneei algumas do livro
A Moda e Seu Papel Social: a senhora vestida de preto usa a roupa da moda dominante. As moças com camisa branca, gravata e chapéu, usam a "moda alternativa".

Ao contrario dos estilos propostos pelos reformadores do vestuário, o estilo alternativo possui registros em fotos, mas costuma ser ignorado nos livros de moda, talvez porque era usado por mulheres que trabalhavam fora de casa, algumas vezes sendo solteiras, todas consideradas à margem socialmente.

Dentre britânicas, francesas e americanas, estas últimas eram as mais avançadas em relação à esta estética. Durante a guerra civil americana, as mulheres usavam paletó escuro, saia mais curta e blusa simples, pois assumiram papéis dos homens que foram pra guerra, o que acabou apressando a emancipação feminina naquele pais, bem antes dos países da Europa.


Estes trajes, permitiam a mulher se locomover mais livremente; quando as francesas o adotaram, o chamaram de tailler que significa "conjunto sob medida". A classe média os usava para viajar e a classe operária os usava em escritórios e lojas. 

Na segunda metade do século, o paletó acabou sendo absorvido pelas altas classes como peça para uso no campo ou no litoral e o elemento final do traje da  mulher independente apareceu nos EUA em 1870, a chamada chemisier, uma camisa masculina adaptada, ornamentada com uma pequena gravata borboleta de cor preta.
O traje alternativo só virou moda dominante na decada de 1890 sendo muito reconhecido através dos trajes das gibson girls.

O fato de uma mulher usar gravata, chemisier, colete, paletó e chapéu era um manifesto pessoal muito forte! O estilo alternativo não era defendido por nenhum grupo em particular. Já as reformadoras do vestuário, muitas eram feministas e centravam suas propostas no uso de calças.


O uso de calças no século XIX
Este foi um tema muito controverso naquele século. A ideologia da época estipulava identidades de gênero fixas e diferenças grandes entre homens e mulheres.
O traje apresentado por Amelia Bloomer em 1850, enfrentou muita resistência pois subvertia a diferença entre os gêneros.

O traje era composto de uma saia curta sobre uma calça turca volumosa. Amelia e outras mulheres, usavam-no por ser confortável prático e seguro - sem a intenção de lançar moda. Mas a peça chamava muita atenção, atraia multidões de homens agressivos e elas eram muito assediadas. Tamanho era o assédio, que elas precisaram parar de usar a roupa poucos meses depois pra evitar mais violência. Mas o traje continuou sendo defendido por feministas e outras mulheres que alegavam que ele promovia a independência e aumentava a capacidade das mulheres executarem movimentos. O bloomer prefigura o terninho do final do século XX.

"Proibidas" de usarem nas ruas, estas mulheres então, usavam bloomers em seus lares.

 Mulheres graduadas, doutoras, acadêmicas, tinham preferência por usar o traje, mesmo que em ambientes mais restritos.

As trabalhadoras rurais usavam calças diariamente, só usavam vestidos aos domingos. São mulheres que romperam padrões estéticos da época. Em alguns locais, chegaram a ser proibidas de trabalhar em algumas áreas pois suas calças chocavam os governantes e visitantes das áreas urbanas.

Os movimentos feministas americanos continuaram até o fim do século lutando para uma reforma no vestuário tentando uma adoção de roupas mais simples. Essas ideias eram radicais demais para as moças de classe média que eram as mulheres que mais interessavam que ingressassem no movimento, pois elas eram as mulheres que fariam a diferença em opinião.
Na França, uma reforma do vestuário não existiu até 1887, quando surgiu uma sociedade defendendo a eliminação do espartilho. Calças eram proibidas naquele país, para usá-las as mulheres precisavam de uma autorização da policia.

Onde o traje era aceito?
Tanto o traje alternativo quanto as calças (knickerbockers/bloomers) eram aceitas como uniforme para a prática de exercícios nas escolas, faculdades e sanatórios. Locais que as mulheres podiam praticar "esportes masculinos" sem serem vistas. Pois mulheres que praticassem "esportes masculinos" em público eram consideradas vulgares e imorais.

Time de basquete feminino (Topeka High School girls´)
Bloomer e knickerbockers eram usados também como trajes de banho.
À medida que o século passou, os esportes foram ficando mais aceitos e um número maior de mulheres começou a praticá-los. E aí chegamos na bicicleta...

A importância do ciclismo na emancipação feminina
Mas o que impactou mesmo a vida das mulheres do fim do século XIX, foi a popularização do ciclismo, na década de 1890. Era um esporte completamento novo e não visto como atividade masculina. 


Para não serem hostilizadas na rua por usarem o traje (saia-calça, knickerbockers e bloomers), as ciclistas de classe média/alta eram levadas até os parques de carruagem e lá se isolavam para dar as pedaladas. 


Afinal, era impossível praticar o ciclismo com as roupas elegantes da época e foi justamente por causa das ciclistas que elite que, com o tempo, o traje acabou sendo aceito como símbolo de emancipação que mudou em definitivo a forma como as roupas eram vistas, dando liberdade ao corpo feminino.

Trajes com "calças" aceitos para andar de bicicleta

Mulheres usam bloomers, saias-calças e saias mais curtas (tornozelo) junto com elementos do vestuário masculino (origem no vestuário alternativo).
Enquanto que atividades e esportes eram inacessíveis à mulheres de classes operárias, isso era contrabalançado com o fato de que elas usavam calças em outros espaço públicos.

O traje alternativo feminino do século XIX nos mostra que a roupa que usamos hoje, deriva mais dele do que das roupas da elite vitoriana. E que os discursos de gênero são mantidos na comunicação não verbal. Mudanças de atitude geraram mudanças estruturais na sociedade.
As calças eram um desafio simbólico muito forte ao sistema - e a maioria das mulheres não estava preparada para fazer isso - pois era considerado desobediência à ordem social. As calças eram associadas aos homens e ao usá-las, as mulheres enfrentavam a autoridade masculina. No século XX, as calças femininas foram plenamente aceitas somente a partir da década de 1970 e acabou se tornando um símbolo da independência feminina na moda.


Fonte: A Moda e Seu Papel Social - Classe, Gênero e Identidade das Roupas de Diana Crane.

A Moda e o Tempo: Os anos 1920

Uma segunda revolução na moda [primeira revolução aqui] aconteceu durante e logo após a I Guerra Mundial, quando a Europa e a América introduziram o que seria chamado de "mundo moderno". Mais uma vez a juventude ficou na moda. As mulheres entraram na década de 1920 com corpos ampulheta e saíram com uma silhueta que lembrava um tapete enrolado, os espartilhos da época achatavam o corpo e as mulheres faziam regimes de fome.
Mesmo antes da Guerra, a silhueta Eduardiana começou a declinar e por volta de 1914, as roupas femininas já seguiam uma linha mais natural. Durante os anos de guerra, a moda foi conservadora, mas as saias se ergueram para acima dos tornozelos para facilitar a vida de mulheres que agora trabalhavam fora de casa ou eram enfermeiras. Quando a guerra acabou, as bainhas subiram e a cintura alargou. Os vestidos eram como retângulos curtos, decotados e muitas vezes sem mangas. Os chapéus encolheram e tomaram forma de sinos. O admirável agora não eram curvas e sim, uma silhueta achatada na frente e atrás e com pernas longas e finas.


Historiadores de moda sugerem várias explicações para este fenômeno. Alguns dizem que para compensar a perda de vidas na I Guerra, a moda feminina tinha de ser sexualmente provocadora para impulsionar o índice de natalidade, o que gerou uma maior liberdade sexual. A maneira de se vestir da época, mesmo com a supressão de características sexuais secundárias em suas roupas "tubo", ainda assim, era mais provocante que a da geração anterior. Outros historiadores sugerem que as mulheres estavam afirmando seus direitos recém conquistados de se vestirem como os homens, ou que estavam tentando substituir os homens jovens que haviam morrido na guerra.

 
 

Possivelmente, os dois motivos acima estavam operando, mas se olharmos as fotos e filmes da época, vemos que as mulheres de 1920 não se pareciam com garotos, mas sim com crianças. Assim como na revolução romântica na moda, o tempo andou para trás. Na revolução romântica a mulher era ideal era uma menina boa e inocente e agora era uma moleca ousada e travessa.
A melindrosa era alegre, namoradora e imprudente em busca de diversão e emoções. Embora tivesse uma aparência adolescente, seu rosto era de uma criança pequena: redondo, nariz arrebitado, olhos grandes e a boca um beicinho; o cabelo era reto na altura do queixo.

 

Os vestidos soltos parecidos com batas ou sacos, terminavam no joelho, não tinham a cintura marcada ou eram "acinturados" na altura do quadril. Os tecidos finos, as cores pálidas como bege, creme, branco - eram as preferidas. Depois de quase um século com espartilhos e vestidos colados ao corpo, as roupas agora pareciam grandes, como se uma menininha vestisse as roupas da mãe. Flores artificiais de seda e veludo e pesados fios de contas, davam a ilusão delas parecerem menores em estatura, contribuindo pro efeito infantil.
Estilos populares nos anos 20 foram as golas peter pan (personagem famoso por se recusar a crescer); blusas e saias de marinheiro - usadas também por mulheres adultas e os sapatos modelo "mary jane", antes tradicional para meninas, agora tinha o salto cubano.

Os homens também perderam a magnitude e a autoridade eduardiana. Eles emagreceram e rejuvenesceram gradativamente. Com os ombros mais estreitos e caídos e o queixo menor e nenhum pelo no rosto. No começo da década, ele era um menino de boa aparência ao invés de um homem de meia idade. Era atlético, audacioso, romântico e moderno. Na literatura, figuras paternas fortes, silenciosas, confiantes pareciam antiquadas e foram substituídas pela figura dos filhos, como os heróis dos romances de James Joyce e Fitzgerald: suscetíveis, impulsivos e ocasionalmente fracos e psicologicamente instáveis.


 


A moda fazia o homem parecer menos poderoso. As roupas eram feitas com material mais leve e com cores pálidas como branco, castanho, cinza claro, creme. O colarinho alto e formal estava desaparecendo; os paletós eram mais curtos e os ombros menos acolchoados. As calças tinham a cintura alta, sugerindo juventude ou uma figura pré-adolescente.  

Charles Chaplin
 

As roupas esportivas de todos os tipos se tornaram populares e mesmo quando não pretendiam jogar golfe ou tênis, os homens usavam pulôveres,calções presos na altura do joelhos e boinas como as de sua infância.



Livro: Dicionário Ilustrado da Moda

Essa semana resolvi por em dia dois reviews de livros de Moda da GG Editora. Já falei do "Quando a Moda é Genial" e hoje vou falar do Dicionário Ilustrado da Moda, do designer Gavin Ambrose e do escritor e jornalista Paul Harris.


O dicionário tem 200 verbetes ilustrados escolhidos de acordo com a terminologia do mercado atual. Cada verbete tem uma ilustração



Pra quem gosta de história da moda, ele explica o que é corset, crinolina, melindrosa, revolução peacock, vintage. Pra quem gosta de moda alternativa, fala sobre subculturas, fetiche, bondage, vinil/pvc, punk, tatuagem... e pra quem gosta da moda de tendências também tem explicações do que são tendências, chic, circulo cromático, fibras naturais, jeans, gravata, tipos de calçados, tipos de chapéu...


... e também termos que com frequência são usados de maneira incorreta, como baby doll ou corselete; conceitos históricos ou tradicionais que  as últimas tendências recuperaram, como espartilho, elisabetano ou melindrosa;  vocabulário técnico e finaliza com uma linha do tempo da história da moda.

 

Particularmente achei o livro lindo, partindo da capa e da qualidade das imagens exemplificando os verbetes, uma coisa legal é que é tamanho bolso e muito fácil de manusear e de localizar os termos. Também achei ótimo que ele explica a diferença de corselet, corsage, corpete e espartilho, que costumam confundir bastante as pessoas.



Para comprar: Site GG Brasil


Breve História do Parc Royal: um Magazine na Belle Époque Carioca

A Belle Époque carioca foi o período em que a cidade do Rio de Janeiro passou por grandes transformações urbanísticas que buscavam transformá-la na "Paris dos Trópicos". 

Foto de Augusto Malta

Entre os anos de 1873 e 1943 existiu no Rio de Janeiro uma loja de departamentos chamada Parc Royal, fundada pelo português José Vasco Ramalho Ortigão. Era localizada na  rua do Ouvidor, no Largo São Francisco. Tinha roupa masculina, feminina, infantil além de tecidos e artigos para a casa, tudo dividido em 32 seções de venda e diversas dependências para uso dos fregueses, com preços competitivos, era  um  local  onde  se  poderia  encontrar o que  havia  de  melhor, acompanhando a evolução da moda e dos hábitos da elite.

Foto de Augusto Malta
 

Au  Parc Royal  foi  inaugurado  em  1873  no  Largo  de  São  Francisco, começando como um pequeno armarinho no prédio nº 122 e logo expandiu-se para  os  prédios  adjacentes, com o sucesso, em 1911, a loja se transferiu  sua  sede  para  a Rua do Ouvidor, passando a ocupar um quarteirão inteiro.

Inauguração da nova loja

A Rua do Ouvidor foi o grande polo de moda do Rio de Janeiro daquela época e o sucesso da Parc Royal se dava em parte por eles importarem as novidades direto de Paris (mas também vendia vestidos de anquinha costurados por escravas). Seu auge foi entre as décadas de 1910 e 1920 - essa é a época foco do livro lançado em 2013 "Parc Royal: um magazine na belle époque carioca".

A autora faz paralelos entre o magazine e outras questões, como a transformação de uma cidade colonial para um Rio moderno e afrancesado que adotava padrões europeus de civilidade. Além do papel da mulher na sociedade carioca e as transformações na indumentária que aconteceram com o tempo, a cultura das aparências e do uso de campanhas publicitárias com lições de etiqueta e onde a beleza e a elegância da mulher era retratada como uma força soberana diante do homem.

 
 

Antes dos grandes magazines, a moda chegava ao Brasil pela revista francesa “La Mode Illustrée”, a loja de departamentos pioneira no RJ, foi a Notre Dame de Paris, inaugurada em 1848, mas não teve tanta expressão quanto o Parc Royal. Este tipo de comércio transformavam roupas e acessórios em objetos de desejo e o vestir em símbolo de transgressão feminina.

O magazine acompanhou o desenvolvimento e o progresso da cidade do Rio. Foi o primeiro estabelecimento carioca a ter uma escada rolante instalada, haviam ventiladores no teto para maior comodidade dos clientes, tecnologias modernas para uma população estava ávida por novidades. Parc Royal  foi precursora também do sistema de preços fixos. A cliente via o preço na vitrine e sabia que ao entrar na loja o mesmo não seria modificado, além de distribuir catálogos onde se podia se fazer encomendas que seriam enviadas direto de sua filial em Paris.

 

Comprar no Parc Royal era um passaporte para a demonstração de uma posição social superior. Elegância, distinção, beleza e novidade eram palavras repetidas à exaustão. Os anúncios tinham um caráter didático: mostravam o que era certo ou errado ao vestir, sempre baseados em normas estritas.  Algumas publicidades eram verdadeiros manuais de etiqueta e civilidade.

"Por meio das fotos e dos anúncios, percebe-se que o magazine era bem elitista. Por outro lado, como uma loja de departamentos, o Parc Royal fazia questão de se apresentar como democratizador de elegância, como se fosse capaz de levar um estilo de vida a uma parcela maior da população, que poderia ascender socialmente justamente através do consumo."  Marissa Gorberg

 
 

"Enormes chapéus cheios de plumas, vestidos de baile, casacos e estolas de pele, luvas, leques e sombrinhas estavam entre os produtos trazidos diretamente de Paris para as mulheres. Para os homens, os ternos “Palm Beach”, sucesso do verão na época, ceroulas francesas de pura lã, gravatas de seda, binóculos de madrepérola da marca francesa Lemaire, “casacos para automóvel”. A moda também exigia elegância nos banhos de mar: o rol de peças incluía costumes de tafetá de seda e cetim impermeáveis, capas de felpo, alpaca e cetim, além de, vejam só, sapatos de banho." Marissa Gorberg

 
 

Além das lojas do Largo de São Francisco e da Avenida Central (hoje Rio Branco), o Parc Royal tinha filiais em Juiz de Fora e Belo Horizonte e um escritório em Paris, que fazia a remessa das mercadorias importadas.
A loja funcionou por 70 anos até que em 9 de julho de 1943, pegou fogo, em um dos maiores incêndios da história do centro do Rio. As chamas foram tão fortes que o prédio desabou. Triste fim para uma incrível história de um dos magazines mais importantes da história da moda nacional.

 


Entrevistas com Marissa Gorberg:

Marissa Gorberg e a história do Parc Royal - Menorah na TV 

e Programa Todo Seu - Entrevista: Parc Royal, um Magazine na Belle Époque Carioca (29/04/14)

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