Resenha do livro: Sociologia das Tendências

O blog tem a Editora GG Moda como parceira literária, dentre os títulos que já apresentei aqui temos o História da Indumentária e da Moda que vira e mexe uso como base pra artigos, o Dicionário Ilustrado da Moda, o Quando a Moda é Genial e ainda tenho alguns outros livros a apresentar. Hoje eu vou falar sobre o Sociologia das Tendências do autor Guillaume Erner que é especialista em sociologia do consumo, da moda e das tendências.

É impossível falar de história da Moda sem falar de suas tendências. Na verdade, a profissão de Cool/Trend Hunter é uma das que mais tem se destacado na atualidade. E o que esse livro tenta é explicar as teorias de como as tendências surgem e porque algumas pegam e outras não. Acaba que envolve uma breve análise de épocas como o século XIX onde o amor pela novidade impulsionou a revolução industrial, a sede das pessoas por ineditismo gerava as tendências.  Na década de 1960 com o pret-a-porter, o comércio e não mais os criadores passaram a ditar moda e na década de 1970 a moda foi perdendo seu significado ideológico e se tornando um produto, uma indústria.


"A moda é o que sai de moda" - Coco Chanel


Algumas das questões abordadas no livro são: como indivíduos diferentes uns dos outros e sem comum acordo se descobrem nas mesmas vontades de consumo? Como o individualismo resulta numa obediência às trends?
Esses fenômenos justificam a existência dos estudos de sociologia das tendências que se dedicam a compreender as condições de produção destas modas que tem mecanismos de imitação e difusão dos gostos. 
Termos como febre, hype e mania são exemplificados  assim como a diferença entre tendências funcionais e não funcionais.
A surgimento das tendências através da sociedade de consumo, evoluções tecnológicas e econômicas incita consumidores a renovar seus bens, num ciclo cada vez mais veloz e infindo de busca por novidades.


Os objetos são programados pra virar tendência? Como se propagam os gostos dentro da sociedade?
 
Para responder a estas perguntas, a opinião de diversos sociólogos, antropólogos e estudiosos da Moda são abordadas, desde Michel Maffesoli que dizia que a sociedade é formada por diferentes tribos que se distinguem umas das outras por seus modos de consumo; passando por Roland Barthes e seu famoso texto "As Mitologias"; Jean Baudrillard ("o capitalismo precisa que os individuos sejam consumidores insaciáveis"); Alfred Kroeber e a "nostalgia de uma época feliz"; Robert K. Merton e sua famosa profecia autorrealizável; Max Weber com a teoria da "rotinização do carisma"; Thorstein Veblen e o consumo ostentatório; René Girard e o "nossos desejos são ditados pelos outros"; Pierre Bordieu e a imitação dos gostos das classes dominante; Edmond Goblot (tendencias como objeto de dominação) e o profético Georg Simmel.

Após a abordagem dos teóricos, percebemos o quanto as tendências são contraditórias porque ao mesmo tempo que pregam diferenciação pela novidade, pregam o pertencimento (imitação), assim, a democratização da moda, deixa os indivíduos muito parecidos esteticamente entre si.

O livro finaliza contando sobre se é possível e como, antecipar a próxima trend e a influência dos blogs e cadernos de tendência - que inclusive tem semiólogos, sociólogos e historiadores na equipe de pesquisa.
Outra informação interessante contida, é a participação das lojas de departamento na divulgação das tendências e qual método elas usam pra não apostar na trend errada, identificando os desejos da maioria.

O livro pode ser comprado no próprio site da GG Moda, basta acessar: Sociologia das Tendências de Guillaume Erner.

Era Barroca: A mulher e a Moda Feminina

Na Era Barroca, embora as mulheres se tornassem mais liberais, ainda não podiam participar ativamente da vida política e comercial, mas foram encorajadas a expressar livremente suas ideias com a introdução no século XVII, do "salão", que era uma reunião de um grupo de pessoas com ideias semelhantes num ambiente doméstico.
Escritores, jornalistas e outras pessoas fofocavam, trocavam ideias e promoviam suas carreiras. Estes espaços eram criados, em geral, por mulheres ricas como Lady Caroline Holland e as Madames de Stael, de Chevreuse e de Sévigné. 

Retrato de Madame Sévigné: seu vestido simples reflete o novo estilo barroco: 
mais natural, sóbrio e elegante que as extravagâncias renascentistas. 

As opiniões das mulheres começaram a ter mais importância, filósofos como René Descartes e Poullain de la Barre introduziram novas teorias sobre gênero. Descartes acreditava que o corpo e a alma eram separadas, já de la Barre acreditava que a alma não tinha gênero, assim, se as mulheres recebessem a mesma educação que os homens,os "vicios femininos" seriam reduzidos. Esses debates em salões e na corte não chegavam a todas as camadas da sociedade. Se as mulheres trabalhassem, elas ganhavam menos que os homens, casais lésbicos viviam como homem e mulher onde uma delas se vestia de homem. Casamento e criação dos filhos eram a principal função da mulher barroca. As mulheres ricas já tinham acesso à cirurgiões na hora do parto; a melhor alimentação garantia o desenvolvimento dos filhos e já se fazia controle de natalidade.

O aumento da classe media acelerou a moda. A partir de 1650 a moda francesa dominou a europa substituindo a influência espanhola, os vestuário começou a ser feito mais como um terno ou um conjunto, chamados de en suite: o corpete, a anágua e o vestido eram do mesmo tecido e usados juntos. A forma da França espalhar sua moda foi através de manequins em tamanho humano que eram apresentados aos monarcas de vários países. O vestuário feminino e masculino também passam a se diferenciar de forma mais marcada assim como houve a volta da sazonalidade: tecidos leves no verão e os pesados  no inverno.

Entre 1672 e 1674 o formato e ornamentação das mangas mudou pelo menos sete vezes. Assim como na arte, a moda barroca era fluida com silheuta mais natural e sóbria com joias simples. O conforto passou a ser considerado e começava a refletir características individuais, a opinião do cliente importava na confecção do vestuário.

O decote profundo era chamado de décolletage, era aberto e amplo e exibia um busto elevado que podia ser coberto com uma gola de renda. Essa liberdade maior no corpo refletia também uma descoberta feita em 1628 por Willian Harvey: da circulação sanguínea, assim, haviam debates sobre o uso do espartilho muito justo visando descobrir se ele era o causador de dores e sensações desagradáveis nas mulheres. Acaba que são abandonados todos os fixadores de madeira que eram usados dentro das roupas femininas. E o espartilho também se torna mais curto e menos engomado. Os quadris continuam acolchoados e com uso de saias como anáguas de volume. 


Casacos de seda curtos e acinturados e mangas no antebraço com rendas no punho.

 

A transição visual entre o corpete e a saia da mulher era bem menos dramática que na era renascentista.

Em 1670 introduziu-se o robe de chambre, um substituto casual do vestido formal também conhecido como mantua. Tinham mangas e punhos na altura dos cotovelos e ficou pelo menos um século na moda. Depois vem o vestido sacque ou robe à volante aberto na frente e levemente cilhado na cintura. Em versaillhes as mulheres suavam três saias, sendo que a última tinha uma cauda longa que era carrega da por um pajem.

Havia grande demanda por pérolas que eram usadas em todo lugar: cabelos, mangas, roupas, e em brincos simples em formato de gota.
 
 
 

Na época acreditava-se que a água era nociva à pele, por isso elas esfregavam suas peles em toalhas para diminuir os odores e trocavam a roupa de baixo, branca, com frequência. O perfume era o substituto do banho, disfarçava odores e era carregado em caixinhas presas à cintos ou correntes no pescoço ou em sachês em tafetá com pós perfumado. Inclusive os ambientes eram aromatizados. Tudo era perfumando! Dos dentes limpos com pastilhas aromáticas à lenços e cachorros de estimação.

Luvas também eram perfumadas

Lábios vermelhos, sobrancelhas escuras e delineadas e olhos claros eram o ideal de beleza. Nos cabelos, o ideal eram pretos ou castanhos com cachos até os ombros ou nas laterais do rosto. Os calçados femininos e masculinos eram semelhantes, sendo pras mulheres mules e tamancos em seda ou cetim.
O vestuário feminino barroco variava de cada país, por exemplo na Inglaterra manteve traços renascentistas por um bom tempo e na Holanda era mais austero com cores escuras e golas fechadas em rendas.



As Sufragistas e a Moda como ferramenta política

No post anterior, falamos sobre a “Moda Alternativa” usada por mulheres que rompiam padrões sociais no século XIX. E tanto essas mulheres quanto a roupa que elas usavam foram precursoras do que viria a ser um novo comportamento feminino frente à sociedade no século seguinte. O acesso ao trabalho quanto a educação deram à elas a necessidade de se sentirem representadas politicamente e o voto era o meio delas conseguirem essa representação. Uma luta que se travou por quase um século, através de movimentos feministas que foram, no fim do século XIX, chamados de Movimento das Sufragistas.
Tem sido dito que a forma como você se veste diz muito sobre o que você acredita. Os exemplos a seguir mostram a Moda como poderosa ferramenta política que interage com questões importantes da sociedade.


As Sufragistas

A luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres sempre existiu, pelo menos desde a antiguidade clássica. Mas as mulheres sempre foram de alguma forma caladas, queimadas ou decapitadas. No começo do século XIX, à medida que mais mulheres eram alfabetizadas e frequentavam universidades, passaram querer intervir na esfera pública.

A lei dizia que "pessoas do sexo masculino" podiam votar, o que excluía mulheres de sua cidadania. Muitas delas já tinham cursos superiores e a educação as fazia conscientes de um desejo de lutar por seus direitos políticos e sociais, assim, em 1848, foi criado em Nova Iorque o National Woman Suffrage Association (NWSA), primeiro movimento feminista organizado pelo direito ao voto feminino. A consciência "feminista" sobre cidadania política plena para as mulheres, tinha uma de suas raízes na Reivindicação dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicado em 1792. 




Os homens que eram contra o direito da mulher ao voto, diziam que o lugar delas era em casa, que elas eram ignorantes e não saberiam votar ou que a presença delas no parlamento seria a ruína da nação, já que elas não eram capazes de entender sobre política.
Em 1906, o jornal Daily Mail, cunha o termo “suffragette” como uma maneira depreciativa de descrever as mulheres mais militantes.
Como citamos no
post anterior, as mulheres queriam o direito de usar calças, tinham o desejo de trabalhar fora, e a ideia masculina de que feministas eram mulheres feias ou solteironas, são observados nos cartoons abaixo, como uma forma de zombar das Sufragistas.

"Ninguém me ama, acho que serei uma suffragette" - a garotinha veste calças.
"O lugar da mulher é na casa dela" - aponta um rapaz à garota.
"Origem e desenvolvimento de uma Suffragette. Aos 15 uma mimadinha; aos 20 uma coquete; aos 40 ainda não se casou! E aos 50, uma suffragette."


"O que eu faria com as sufragistas" - uma mulher presa na cadeira
"A mulher masculina" - critica a moda alternativa da época, que era o uso de camisa e paletó.
A sufragista no palanque é desenhada como uma mulher muito feia.
Abaixo, um homem se torna "mãe"; "Todo mundo trabalha menos a mãe: ela é uma suffragette. Quero votar mas minha esposa não deixa." e por fim, um cartoon escrito: "Dia da eleição" - a mulher sai de casa e o homem cuida de duas crianças ao mesmo tempo.

Sufragistas nas ruas panfletando ou fazendo campanha pelo voto feminino, elas acreditavam que a política precisava levar em conta os direitos das mulheres na sociedade.

A Moda como ferramenta política
Durante todo o século XIX, as feministas lutaram por roupas mais práticas, leves e funcionais. Por terem ousado vestir calças, eram agredidas na rua, chamadas de lésbicas e feias. Mas chegou um ponto que a geração feminista seguinte percebeu que eram julgadas demais pelo visual. Assim, resolveram mudar as regras do jogo: iriam vestir roupas elegantes justamente pra chocar e mostrar que elas não eram nada do que eles diziam e eram sim, também, mulheres muito bem vestidas!

Cansadas de não serem levadas à serio, as feministas dão um golpe (de estilo), passam a usar roupas elegantes pra bater de frente com os críticos que diziam que elas eram mulheres feias e mal vestidas.


Mas a roupa delas não era como a roupa das outras mulheres, elas fizeram escolhas deliberadas. A frase/slogan “Give Women Votes” (dê às mulheres o voto), foi a referência. Elas usaram as iniciais da frase associadas com cores: G (green), W (white) e V (violet). Assim, verde, branco e violeta seriam as cores da luta!

Roxo além de uma cor real, “o sangue real que corre nas veias de cada sufragista” era liberdade e dignidade; branco era a pureza na vida privada e pública; e verde, a esperança.
Usavam broches com estas cores ou jóias com pedras preciosas como ametista, pedra da lua ou esmeralda. A faixa que elas ostentavam no corpo também era tricolor. Assim, uma mulher reconhecia a outra na rua como parceira quando ambas ostentassem acessórios nos tons especificados.
As cores escuras nos trajes, quando usados, era pra simbolizar a sua seriedade de seus propósitos.



Exemplos de broches e jóias com as cores da luta pelo sufrágio.

Lojas de departamentos
Com seus trajes “alternativos” de luta, que identificavam umas às outras na rua, as sufragistas precisavam de um lugar para conversar sobre feminismo e debater suas ideias sobre seus direitos políticos. É aqui que entram as lojas de departamento.

Gordon Selfridge, proprietário da Selfridges, fundou sua loja em 1909 quando o movimento sufragista estava se tornando sucesso em Londres e o metrô trazia senhoras respeitáveis à cidade. Fazer compras era uma das poucas atividades que as mulheres podiam fazer fora de casa, percebendo isso, Selfridges abriu um café no topo do prédio da loja e instalou banheiros. Assim, as mulheres podiam passar o dia reunidas lá, conversando (e comprando).

O Sr. Selfridge era um importante apoiador do movimento feminista. Ele sabia que mulheres independentes seriam suas melhores clientes! As sufragistas se reuniam na loja e esta oferecia à elas as roupas necessárias para luta. Tudo a preços moderados.


Anúncios: "Selfridges apóia as Suffragettes". No texto é dito que já está à venda "o mais poderoso símbolo da emancipação feminina: o batom vermelho!"
À direita: "Itens interessantes de várias sessões e algumas nas Cores do Movimento."

O ano de 1912 foi o momento de virada para as Sufragistas britânicas: elas adotaram práticas mais violentas como se acorrentarem em grades, quebrarem vidraças de lojas que não apoiavam a causa, colocarem fogo em caixas de correio e até mesmo detonar bombas. O governo as espionava. Muitas foram presas. Na cadeia, algumas chegaram a fazer greve de fome.

Clique para aumentar a imagem.

"Mulheres trazem eleitores ao mundo. Deixem-nas votarem"

"Pedir liberdade para as mulheres não é um crime. 
Prisioneiras sufragistas não devem ser tratadas como criminosas"

 Sufragistas elegantemente vestidas

Organizadas por Alice Paul, em 1913, mais de 5 mil sufragistas marcharam em apoio ao voto feminino na capital americana. A marcha foi liderada por Inez Milholland Boissevain montada num cavalo branco. Grupos anti-feministas, irritados, tentaram perturbar o desfile em vários lugares.

Multidão hostil querendo parar o desfile. Mais de mil sufragistas foram hospitalizadas. Isso deu muita mídia e o governo precisou repensar a questão dos direitos femininos.



As marchas feministas continuaram mensalmente em cidades dos EUA e no Reino Unido nos anos seguintes.

Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, o movimento do sufrágio diminuiu e a guerra acabou sendo uma grande oportunidade para que as mulheres assumissem empregos masculinos tradicionais nas mais diversas áreas.
Num protesto em 1918, Alice Paul foi presa, fez greve de fome e foi alimentada na cadeia de forma forçada com ovos enfiados pelo seu nariz até ela vomitar sangue. Ela foi colocada no sanatório e queriam declará-la como insana. Seu médico declarou: “Coragem nas mulheres é constantemente confundida com insanidade”.


Panfleto faz alusão ao que Alice Paul (à direita) passou na cadeia

Após esse acontecimento com Alice Paul, ao fim da guerra, ainda em 1918, as mulheres ganharam os mesmos direitos políticos que os homens na Inglaterra e as americanas conseguiram o direito em 1920.

Em 1916, uma sufragista americana usa calças super justas e saia com fenda num dos desfiles de protesto.

No mesmo ano, Lady Florence Norman, anda na sua scooter.

Mas é importante lembrar que, após mais de um século de luta para garantir direitos políticos, as Sufragistas também lutavam pelo direito ao divórcio, ao direito à educação e à ter empregos que eram “masculinos” como o exercício da Medicina e Direito. O voto é de importância vital para alcançar amplos direitos das mulheres na esfera social.


Devido à violência racial e de gênero, haviam muitos linchamentos de pessoas negras. Assim, sufragistas como Ida Wells-Barnett (à esquerda), eram uma das feministas que acreditava que o direito ao voto era uma forma de lutar por uma representação política dos negros.

Acho que podemos aprender muito com as sufragistas e quem sabe a partir de agora, olharmos o voto, a política com outros olhos, pois diz respeito também à nossa posição como mulheres na sociedade. A luta delas não foi à toa, afinal, abriram tantas portas para nós no século XX...


Mais sobre:
Para saber sobre as sufragistas no Brasil, recomendo [este artigo].

Filme a ser lançado:
Sufragette. Com Carey Mulligan, Meryl Streep e Helena Bonham Carter.
"Não queremos ser infratoras das leis. Nós queremos fazer as leis!"



Em 2014, o filme Mary Poppins fez 50 anos! E não é que a mãe das crianças era uma suffragette? 





Artigo postado originalmente no site Moda de Subculturas

História da Moda para Crianças: "Keka tá na Moda" e "As saias voadoras de Keka"

Hoje vim dar dica de dois livros pra quem tem crianças e quer introduzi-las ao universo da História da Moda. Tratam-se dos livros "Keka tá na Moda" e "As saias voadoras de Keka" de Helen Pomposelli publicados pela editora Rocco Jovens Leitores.

Como todo livro voltado pra crianças, tem ilustrações grandes, texto pequeno e objetivo e muitas cores.

No "Keka tá na Moda", Keka visita a casa da avó e descobre uma caixa cheia de chapéus antigos, ao colocá-los na cabeça ela é levada à época em que cada um daqueles modelos era usado, aprendendo um pouco sobre o estilo de vida e a moda de cada período. Assim, ela começa a identificar em seu próprio visual, de onde veio cada peça que usa. Ao fim do livro tem dicas de como usar peças antigas e um mini dicionário de termos, tudo, claro, voltado ao público infantil numa linguagem bem simples, didática e lúdica.



Já "As saias voadoras de Keka" segue o mesmo processo, Keka conhece a moda de outras épocas ao ser transportadas à elas, desta vez ao vestir saias disponíveis numa misteriosa loja que apareceu na frente de sua casa. As ilustrações de Roberta Lewis são ricas, muito coloridas e fascinantes aos olhos infantis. Ao fim do livro existe um minidicionário de modelos de saias.


Considero ambos os livros uma bela descoberta. É muito legal saber que podemos presentear as crianças com obras que ensinam história da moda de forma lúdica, despertando assim não apenas a curiosidade sobre o que vestimos mas também sobre outras épocas, plantando a semente da curiosidade e fantasia acompanhada de conhecimento. 
Espero que tenham gostado das dicas!


Vestuário Alternativo Feminino no século XIX

O vestuário feminino usado no século XX, deriva dos estilos das mulheres da classe média e operária cujo comportamento não correspondia ao ideal feminino da elite vitoriana.

A industrialização retirou as mulheres de classe média e alta da participação ativa na economia, o ócio aristocrático era considerado a atividade apropriada para elas.
Embora sejamos bombardeados das lindas imagens dos trajes da elite vitoriana, um outro estilo, "alternativo", coexistiu  e foi largamente adotado, mas pouco falado. Ele incorporava ítens do vestuário masculino esportivo inglês como gravatas, chapéus (cartola, coco, palha, fedoras), paletós, coletes e camisas, isoladamente ou combinados entre si, mas sempre usados juntos com peças femininas da moda.

 Não encontrei fotos do vestuário alternativo na web, então escaneei algumas do livro
A Moda e Seu Papel Social: a senhora vestida de preto usa a roupa da moda dominante. As moças com camisa branca, gravata e chapéu, usam a "moda alternativa".

Ao contrario dos estilos propostos pelos reformadores do vestuário, o estilo alternativo possui registros em fotos, mas costuma ser ignorado nos livros de moda, talvez porque era usado por mulheres que trabalhavam fora de casa, algumas vezes sendo solteiras, todas consideradas à margem socialmente.

Dentre britânicas, francesas e americanas, estas últimas eram as mais avançadas em relação à esta estética. Durante a guerra civil americana, as mulheres usavam paletó escuro, saia mais curta e blusa simples, pois assumiram papéis dos homens que foram pra guerra, o que acabou apressando a emancipação feminina naquele pais, bem antes dos países da Europa.


Estes trajes, permitiam a mulher se locomover mais livremente; quando as francesas o adotaram, o chamaram de tailler que significa "conjunto sob medida". A classe média os usava para viajar e a classe operária os usava em escritórios e lojas. 

Na segunda metade do século, o paletó acabou sendo absorvido pelas altas classes como peça para uso no campo ou no litoral e o elemento final do traje da  mulher independente apareceu nos EUA em 1870, a chamada chemisier, uma camisa masculina adaptada, ornamentada com uma pequena gravata borboleta de cor preta.
O traje alternativo só virou moda dominante na decada de 1890 sendo muito reconhecido através dos trajes das gibson girls.

O fato de uma mulher usar gravata, chemisier, colete, paletó e chapéu era um manifesto pessoal muito forte! O estilo alternativo não era defendido por nenhum grupo em particular. Já as reformadoras do vestuário, muitas eram feministas e centravam suas propostas no uso de calças.


O uso de calças no século XIX
Este foi um tema muito controverso naquele século. A ideologia da época estipulava identidades de gênero fixas e diferenças grandes entre homens e mulheres.
O traje apresentado por Amelia Bloomer em 1850, enfrentou muita resistência pois subvertia a diferença entre os gêneros.

O traje era composto de uma saia curta sobre uma calça turca volumosa. Amelia e outras mulheres, usavam-no por ser confortável prático e seguro - sem a intenção de lançar moda. Mas a peça chamava muita atenção, atraia multidões de homens agressivos e elas eram muito assediadas. Tamanho era o assédio, que elas precisaram parar de usar a roupa poucos meses depois pra evitar mais violência. Mas o traje continuou sendo defendido por feministas e outras mulheres que alegavam que ele promovia a independência e aumentava a capacidade das mulheres executarem movimentos. O bloomer prefigura o terninho do final do século XX.

"Proibidas" de usarem nas ruas, estas mulheres então, usavam bloomers em seus lares.

 Mulheres graduadas, doutoras, acadêmicas, tinham preferência por usar o traje, mesmo que em ambientes mais restritos.

As trabalhadoras rurais usavam calças diariamente, só usavam vestidos aos domingos. São mulheres que romperam padrões estéticos da época. Em alguns locais, chegaram a ser proibidas de trabalhar em algumas áreas pois suas calças chocavam os governantes e visitantes das áreas urbanas.

Os movimentos feministas americanos continuaram até o fim do século lutando para uma reforma no vestuário tentando uma adoção de roupas mais simples. Essas ideias eram radicais demais para as moças de classe média que eram as mulheres que mais interessavam que ingressassem no movimento, pois elas eram as mulheres que fariam a diferença em opinião.
Na França, uma reforma do vestuário não existiu até 1887, quando surgiu uma sociedade defendendo a eliminação do espartilho. Calças eram proibidas naquele país, para usá-las as mulheres precisavam de uma autorização da policia.

Onde o traje era aceito?
Tanto o traje alternativo quanto as calças (knickerbockers/bloomers) eram aceitas como uniforme para a prática de exercícios nas escolas, faculdades e sanatórios. Locais que as mulheres podiam praticar "esportes masculinos" sem serem vistas. Pois mulheres que praticassem "esportes masculinos" em público eram consideradas vulgares e imorais.

Time de basquete feminino (Topeka High School girls´)
Bloomer e knickerbockers eram usados também como trajes de banho.
À medida que o século passou, os esportes foram ficando mais aceitos e um número maior de mulheres começou a praticá-los. E aí chegamos na bicicleta...

A importância do ciclismo na emancipação feminina
Mas o que impactou mesmo a vida das mulheres do fim do século XIX, foi a popularização do ciclismo, na década de 1890. Era um esporte completamento novo e não visto como atividade masculina. 


Para não serem hostilizadas na rua por usarem o traje (saia-calça, knickerbockers e bloomers), as ciclistas de classe média/alta eram levadas até os parques de carruagem e lá se isolavam para dar as pedaladas. 


Afinal, era impossível praticar o ciclismo com as roupas elegantes da época e foi justamente por causa das ciclistas que elite que, com o tempo, o traje acabou sendo aceito como símbolo de emancipação que mudou em definitivo a forma como as roupas eram vistas, dando liberdade ao corpo feminino.

Trajes com "calças" aceitos para andar de bicicleta

Mulheres usam bloomers, saias-calças e saias mais curtas (tornozelo) junto com elementos do vestuário masculino (origem no vestuário alternativo).
Enquanto que atividades e esportes eram inacessíveis à mulheres de classes operárias, isso era contrabalançado com o fato de que elas usavam calças em outros espaço públicos.

O traje alternativo feminino do século XIX nos mostra que a roupa que usamos hoje, deriva mais dele do que das roupas da elite vitoriana. E que os discursos de gênero são mantidos na comunicação não verbal. Mudanças de atitude geraram mudanças estruturais na sociedade.
As calças eram um desafio simbólico muito forte ao sistema - e a maioria das mulheres não estava preparada para fazer isso - pois era considerado desobediência à ordem social. As calças eram associadas aos homens e ao usá-las, as mulheres enfrentavam a autoridade masculina. No século XX, as calças femininas foram plenamente aceitas somente a partir da década de 1970 e acabou se tornando um símbolo da independência feminina na moda.


Fonte: A Moda e Seu Papel Social - Classe, Gênero e Identidade das Roupas de Diana Crane.

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