A Moda e o Tempo: Os anos 1920

Uma segunda revolução na moda [primeira revolução aqui] aconteceu durante e logo após a I Guerra Mundial, quando a Europa e a América introduziram o que seria chamado de "mundo moderno". Mais uma vez a juventude ficou na moda. As mulheres entraram na década de 1920 com corpos ampulheta e saíram com uma silhueta que lembrava um tapete enrolado, os espartilhos da época achatavam o corpo e as mulheres faziam regimes de fome.
Mesmo antes da Guerra, a silhueta Eduardiana começou a declinar e por volta de 1914, as roupas femininas já seguiam uma linha mais natural. Durante os anos de guerra, a moda foi conservadora, mas as saias se ergueram para acima dos tornozelos para facilitar a vida de mulheres que agora trabalhavam fora de casa ou eram enfermeiras. Quando a guerra acabou, as bainhas subiram e a cintura alargou. Os vestidos eram como retângulos curtos, decotados e muitas vezes sem mangas. Os chapéus encolheram e tomaram forma de sinos. O admirável agora não eram curvas e sim, uma silhueta achatada na frente e atrás e com pernas longas e finas.


Historiadores de moda sugerem várias explicações para este fenômeno. Alguns dizem que para compensar a perda de vidas na I Guerra, a moda feminina tinha de ser sexualmente provocadora para impulsionar o índice de natalidade, o que gerou uma maior liberdade sexual. A maneira de se vestir da época, mesmo com a supressão de características sexuais secundárias em suas roupas "tubo", ainda assim, era mais provocante que a da geração anterior. Outros historiadores sugerem que as mulheres estavam afirmando seus direitos recém conquistados de se vestirem como os homens, ou que estavam tentando substituir os homens jovens que haviam morrido na guerra.

 
 

Possivelmente, os dois motivos acima estavam operando, mas se olharmos as fotos e filmes da época, vemos que as mulheres de 1920 não se pareciam com garotos, mas sim com crianças. Assim como na revolução romântica na moda, o tempo andou para trás. Na revolução romântica a mulher era ideal era uma menina boa e inocente e agora era uma moleca ousada e travessa.
A melindrosa era alegre, namoradora e imprudente em busca de diversão e emoções. Embora tivesse uma aparência adolescente, seu rosto era de uma criança pequena: redondo, nariz arrebitado, olhos grandes e a boca um beicinho; o cabelo era reto na altura do queixo.

 

Os vestidos soltos parecidos com batas ou sacos, terminavam no joelho, não tinham a cintura marcada ou eram "acinturados" na altura do quadril. Os tecidos finos, as cores pálidas como bege, creme, branco - eram as preferidas. Depois de quase um século com espartilhos e vestidos colados ao corpo, as roupas agora pareciam grandes, como se uma menininha vestisse as roupas da mãe. Flores artificiais de seda e veludo e pesados fios de contas, davam a ilusão delas parecerem menores em estatura, contribuindo pro efeito infantil.
Estilos populares nos anos 20 foram as golas peter pan (personagem famoso por se recusar a crescer); blusas e saias de marinheiro - usadas também por mulheres adultas e os sapatos modelo "mary jane", antes tradicional para meninas, agora tinha o salto cubano.

Os homens também perderam a magnitude e a autoridade eduardiana. Eles emagreceram e rejuvenesceram gradativamente. Com os ombros mais estreitos e caídos e o queixo menor e nenhum pelo no rosto. No começo da década, ele era um menino de boa aparência ao invés de um homem de meia idade. Era atlético, audacioso, romântico e moderno. Na literatura, figuras paternas fortes, silenciosas, confiantes pareciam antiquadas e foram substituídas pela figura dos filhos, como os heróis dos romances de James Joyce e Fitzgerald: suscetíveis, impulsivos e ocasionalmente fracos e psicologicamente instáveis.


 


A moda fazia o homem parecer menos poderoso. As roupas eram feitas com material mais leve e com cores pálidas como branco, castanho, cinza claro, creme. O colarinho alto e formal estava desaparecendo; os paletós eram mais curtos e os ombros menos acolchoados. As calças tinham a cintura alta, sugerindo juventude ou uma figura pré-adolescente.  

Charles Chaplin
 

As roupas esportivas de todos os tipos se tornaram populares e mesmo quando não pretendiam jogar golfe ou tênis, os homens usavam pulôveres,calções presos na altura do joelhos e boinas como as de sua infância.



Livro: Dicionário Ilustrado da Moda

Essa semana resolvi por em dia dois reviews de livros de Moda da GG Editora. Já falei do "Quando a Moda é Genial" e hoje vou falar do Dicionário Ilustrado da Moda, do designer Gavin Ambrose e do escritor e jornalista Paul Harris.


O dicionário tem 200 verbetes ilustrados escolhidos de acordo com a terminologia do mercado atual. Cada verbete tem uma ilustração



Pra quem gosta de história da moda, ele explica o que é corset, crinolina, melindrosa, revolução peacock, vintage. Pra quem gosta de moda alternativa, fala sobre subculturas, fetiche, bondage, vinil/pvc, punk, tatuagem... e pra quem gosta da moda de tendências também tem explicações do que são tendências, chic, circulo cromático, fibras naturais, jeans, gravata, tipos de calçados, tipos de chapéu...


... e também termos que com frequência são usados de maneira incorreta, como baby doll ou corselete; conceitos históricos ou tradicionais que  as últimas tendências recuperaram, como espartilho, elisabetano ou melindrosa;  vocabulário técnico e finaliza com uma linha do tempo da história da moda.

 

Particularmente achei o livro lindo, partindo da capa e da qualidade das imagens exemplificando os verbetes, uma coisa legal é que é tamanho bolso e muito fácil de manusear e de localizar os termos. Também achei ótimo que ele explica a diferença de corselet, corsage, corpete e espartilho, que costumam confundir bastante as pessoas.



Para comprar: Site GG Brasil


Breve História do Parc Royal: um Magazine na Belle Époque Carioca

A Belle Époque carioca foi o período em que a cidade do Rio de Janeiro passou por grandes transformações urbanísticas que buscavam transformá-la na "Paris dos Trópicos". 

Foto de Augusto Malta

Entre os anos de 1873 e 1943 existiu no Rio de Janeiro uma loja de departamentos chamada Parc Royal, fundada pelo português José Vasco Ramalho Ortigão. Era localizada na  rua do Ouvidor, no Largo São Francisco. Tinha roupa masculina, feminina, infantil além de tecidos e artigos para a casa, tudo dividido em 32 seções de venda e diversas dependências para uso dos fregueses, com preços competitivos, era  um  local  onde  se  poderia  encontrar o que  havia  de  melhor, acompanhando a evolução da moda e dos hábitos da elite.

Foto de Augusto Malta
 

Au  Parc Royal  foi  inaugurado  em  1873  no  Largo  de  São  Francisco, começando como um pequeno armarinho no prédio nº 122 e logo expandiu-se para  os  prédios  adjacentes, com o sucesso, em 1911, a loja se transferiu  sua  sede  para  a Rua do Ouvidor, passando a ocupar um quarteirão inteiro.

Inauguração da nova loja

A Rua do Ouvidor foi o grande polo de moda do Rio de Janeiro daquela época e o sucesso da Parc Royal se dava em parte por eles importarem as novidades direto de Paris (mas também vendia vestidos de anquinha costurados por escravas). Seu auge foi entre as décadas de 1910 e 1920 - essa é a época foco do livro lançado em 2013 "Parc Royal: um magazine na belle époque carioca".

A autora faz paralelos entre o magazine e outras questões, como a transformação de uma cidade colonial para um Rio moderno e afrancesado que adotava padrões europeus de civilidade. Além do papel da mulher na sociedade carioca e as transformações na indumentária que aconteceram com o tempo, a cultura das aparências e do uso de campanhas publicitárias com lições de etiqueta e onde a beleza e a elegância da mulher era retratada como uma força soberana diante do homem.

 
 

Antes dos grandes magazines, a moda chegava ao Brasil pela revista francesa “La Mode Illustrée”, a loja de departamentos pioneira no RJ, foi a Notre Dame de Paris, inaugurada em 1848, mas não teve tanta expressão quanto o Parc Royal. Este tipo de comércio transformavam roupas e acessórios em objetos de desejo e o vestir em símbolo de transgressão feminina.

O magazine acompanhou o desenvolvimento e o progresso da cidade do Rio. Foi o primeiro estabelecimento carioca a ter uma escada rolante instalada, haviam ventiladores no teto para maior comodidade dos clientes, tecnologias modernas para uma população estava ávida por novidades. Parc Royal  foi precursora também do sistema de preços fixos. A cliente via o preço na vitrine e sabia que ao entrar na loja o mesmo não seria modificado, além de distribuir catálogos onde se podia se fazer encomendas que seriam enviadas direto de sua filial em Paris.

 

Comprar no Parc Royal era um passaporte para a demonstração de uma posição social superior. Elegância, distinção, beleza e novidade eram palavras repetidas à exaustão. Os anúncios tinham um caráter didático: mostravam o que era certo ou errado ao vestir, sempre baseados em normas estritas.  Algumas publicidades eram verdadeiros manuais de etiqueta e civilidade.

"Por meio das fotos e dos anúncios, percebe-se que o magazine era bem elitista. Por outro lado, como uma loja de departamentos, o Parc Royal fazia questão de se apresentar como democratizador de elegância, como se fosse capaz de levar um estilo de vida a uma parcela maior da população, que poderia ascender socialmente justamente através do consumo."  Marissa Gorberg

 
 

"Enormes chapéus cheios de plumas, vestidos de baile, casacos e estolas de pele, luvas, leques e sombrinhas estavam entre os produtos trazidos diretamente de Paris para as mulheres. Para os homens, os ternos “Palm Beach”, sucesso do verão na época, ceroulas francesas de pura lã, gravatas de seda, binóculos de madrepérola da marca francesa Lemaire, “casacos para automóvel”. A moda também exigia elegância nos banhos de mar: o rol de peças incluía costumes de tafetá de seda e cetim impermeáveis, capas de felpo, alpaca e cetim, além de, vejam só, sapatos de banho." Marissa Gorberg

 
 

Além das lojas do Largo de São Francisco e da Avenida Central (hoje Rio Branco), o Parc Royal tinha filiais em Juiz de Fora e Belo Horizonte e um escritório em Paris, que fazia a remessa das mercadorias importadas.
A loja funcionou por 70 anos até que em 9 de julho de 1943, pegou fogo, em um dos maiores incêndios da história do centro do Rio. As chamas foram tão fortes que o prédio desabou. Triste fim para uma incrível história de um dos magazines mais importantes da história da moda nacional.

 


Entrevistas com Marissa Gorberg:

Marissa Gorberg e a história do Parc Royal - Menorah na TV 

e Programa Todo Seu - Entrevista: Parc Royal, um Magazine na Belle Époque Carioca (29/04/14)

Livro: Quando a Moda é Genial - 80 obras primas em detalhes

Essa semana resolvi por em dia dois reviews de livros de Moda da GG Editora. Começo com o Quando a Moda é Genial  - 80 obras primas em detalhes, de Marnie Fogg.


É um livro super fácil e leve de manusear, é em tamanho pequeno mas com muita qualidade nas imagens. A proposta dele  é contar porque algumas criações causam mais impacto que outras, mostrando o conjunto de elementos (design, modelagem, tecnologia) e até mesmo fatos históricos que fizeram com que a peça se destacasse, ou seja, se tornassem icônicas.

Sua abrangência é do começo do século XX até a contemporaneidade, trazendo inclusive o vestido Givenchy que Cate Blanchett usou no Oscar de 2011 e, do mesmo ano, o vestido de penas de Alexander McQueen por Sarah Burton.
A autora, explica as características desde peças de alta costura até as que incorporam outras culturas, como o robe de style de Lanvin passando por roupas casuais e da silhueta ampulheta do bar suit de Dior.

As categorias analisadas são: luxo, forma, exotismo, asceticismo, subversão, utilidade, erotismo, revivalismo, teatral e futurismo. Dentro de cada uma há subcategorias. 
Na categoria "asceticismo" as subcategorias são, por exemplo: básico, modernismo, refinamento, austeridade e minimalismo. Na categoria "revivalismo": ironia, art déco, boêmio, historicismo, mitologia etc...

Dedicar uma página toda só com a imagem da "obra" e a página seguinte explicando seus detalhes de forma bem didática, permite que a análise e o entendimento seja um processo fácil até para quem não tem intimidade com história da moda. 
Basicamente as páginas são assim: imagem do traje - nome - data que foi lançado - designer. Textos que situam ou contextualiza o momento histórico e/ou a característica da peça junto com a inspiração do estilista e uma frase do próprio estilista ou de outra pessoa/publicação de moda sobre o traje.

*Fotos do Site*

*minhas fotos*
 

Após a análise dos trajes, tem várias páginas com breves biografias de estilistas de Adidas à Yves Saint Laurent e finaliza com um quadro chamado "linha do tempo" partido da década de 1920 à de 2010 onde a gente pode ver todas as roupas ilustradas no livro no ano de seu lançamento e comparar com outros trajes lançados na mesma década. 
Para comprar: Site GG Brasil

Dica de Livro: História da Indumentária e da Moda - Da Antiguidade aos Dias Atuais

Em agosto fiz o sorteio do livro História da Indumentária e da Moda - Da Antiguidade aos Dias Atuais, de autoria de Bronwyn Cosgrave e publicado pela editora GGBrasil. Pois bem, finalmente terminei de ler o exemplar que a editora me enviou e resolvi fazer uma resenha pra quem estiver interessado na obra.

O livro é grande, tem 24cm x 29cm de medidas, o que dá um ideia do tamanho das ilustrações. Tem 258 páginas em uma capa maleável, ou seja, é bem confortável de segurar pra ler.
Quando se trata de história da moda, fotos e ilustrações são fundamentais pro entendimento do texto e o livro trás imagens bem grandes que o deixam esteticamente muito atraente, além de dar vontade de ficar analisando os detalhes das imagens por vários minutos!

Após um texto introdutório da autora sobre a obra, chega-se ao primeiro capítulo: o Antigo Egito. Desta parte da Antiguidade, temos também capítulos sobre Creta, Grécia, Etrúria, Roma e Bizâncio
A separação dos períodos é feita por ilustrações deste tipo: 



Abaixo, vou ilustrar como se dividem os capítulos utilizando fotos das páginas dos livros.

- Contexto Histórico: como o nome diz, dá uma visão do mundo na época.


- A Mulher: este é um espaço que achei muito interessante. Todos os capítulos tem um texto falando sobre como era a vida das mulheres em cada uma destas sociedades ou períodos históricos. No século XIX há tópicos sobre Joséphine Bonaparte e a Rainha Victoria.



- A Indumentária: é a parte onde explica-se de onde veio cada influência dos trajes (artes, outras culturas ou personalidades), as principais características e a produção industrial da moda.



- Vestuário Feminino


 - Vestuário Masculino
 

- Calçados

 

- Tecidos


- Jóias




- Chapéus e acessórios de cabeça



- Beleza e cuidados com a aparência: é um dos diferenciais deste livro. São poucos os livros de história da moda publicados em português que separam um espaço pra falar dos cuidados com a aparência e do tipo de "cosmético" ou maquiagem usadas. Neste espaço também se inclui os penteados.



























O último capítulo é sobre o século XX e se divide de forma diferente dos anteriores. Tendo tópicos sobre a liberação feminina, estilistas como Coco Chanel e passando pro vestuário moderno dos anos 60 a 80 e finalizando com a moda, arte, cultura pop e celebridades interligadas no fim do século.


Conclusão: O livro é muito bom, de escrita objetiva, sem dificuldade de entendimento das explicações das roupas, muito bem ilustrado. É sucinto na medida certa: não é resumido nem detalhista demais.
Pontos fracos: O século XX é realmente muito resumido, mas considero isso compreensível visto que a maioria dos livros de história da moda preferem focar em até mais ou menos a década de 1970. Este vai até a virada do milênio mas de forma bem resumida mesmo.
Outro ponto fraco é o período do fim do século XVIII e começo do século XIX (Eras Diretório, Império, Regência, Romântica). Tem pouquíssima informação sobre a Era Diretório, e as outras 3 épocas são bem resumidas. 

Meu julgamento final é que vale a pena ter o livro pelo conteúdo, facilidade de leitura e de encontrar os assuntos devido à divisão de tópicos dentro dos capítulos.
Espero que tenham gostado e este é o link pra quem se interessar em adquirir.


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