sábado, 7 de setembro de 2013

Robe a L'Anglaise, Parte 2: Referências e Finalização

Antes de mostrar o resultado final de meu Robe a L'Anglaise, senti a necessidade de escrever um pouco sobre meus primeiros contatos com a criação de trajes e sobre as imagens que usei como referência.

Durante a faculdade de Moda, tive aulas de história da moda, modelagem/moulage e de figurino. Na primeira aprendi os contextos históricos, tipos de roupas e nomenclaturas. Nas aulas de Moulage aprendíamos a fazer moldes sob medida e por fim, nas aulas de figurino tínhamos de pôr a mão na massa!
O projeto de finalização do semestre de figurino foi a sala recriar esta roupa da  Isabella de Medici. Portanto, foi nas aulas de figurino que aprendi algumas coisas importantes para criar um traje, coisas que pra quem não é da área de Moda podem parecer difíceis de assimilar e colocar numa ordem de procedimento e de importância. Precisamos notar primeiro a silhueta da época escolhida para saber que tipo de underwear deve ser usada, depois disso precisamos ver os tecidos - na nossa recriação da Isabella de Medici foram comprados 8 metros veludo negro, foi uma zoação na sala de aula mexer naquele tecidão! A seguir, é necessário notar os acessórios para que o traje fique "assimilável" à época. No caso desse nosso trabalho de conclusão de figurino, não íamos fazer uma releitura e sim, tentar ao máximo se aproximar do traje do quadro, como uma réplica. A grande vantagem é que figurino é criatividade! Então ao invés de, por exemplo, usar cana pra fazer um farthingale, podíamos usar mangueiras de plástico e assim vai...
E foi alguns meses atrás consultando meu material das aulas de figurino, lendo alguns livros e reproduzindo os moldes de meus livros de moldes históricos que acumulei alguns conhecimentos para fazer meu Robe a L'Anglaise.

Época, silhueta e tipo de roupa escolhida:
A primeira coisa que fiz, como já contei aqui, foi escolher o Robe a L'Anglaise como peça a ser confeccionada. O robe a  l'anglaise era um traje que tinha a intenção de ser simples, para ser usado no cotidiano. O traje ficou em voga de aproximadamente 1750 a 1790, sendo que em cada época ele teve leves modificações e diferentes tipos de armação de saia. Os vestidos ingleses eram de algodão - ao contrário dos cetins e sedas dos robes franceses. 

Traje:
Busquei em obras de arte, livros e na internet muitas imagens de robes a l'anglaise até encontrar alguns que pareciam bem "facinhos" e escolhê-los como imagens de referência. Os mais "fáceis" pegam mais ou menos 1770 - 1790.
Como era meu primeiro traje histórico, optei por comprar um tecido liso, sem estampas.
Saí  à caça de um tecido de cor lisa, roxo. Meu robe ia ser roxo com rendas brancas. Eu havia decidido fazer um robe como se usava na França, em cetim ou tafetá. Então, parti pras lojas de tecido com duas folhas de sulfite com as imagens de referencia abaixo:



E então, tudo mudou...
Ao chegar numa loja, vi um tecido que me fez cair o queixo devido à semelhança com o de uma das imagens que eu tinha salvo no meu notebook. Só que a imagem era um robe inglês, em algodão. A partir daí bateu aquela dúvida: "E agora? Faço um robe à l'anglaise inglês ou francês?". Quase tive um surto de dúvida porque o robe roxo já estava na minha mente há uma semana.
Voltei pra casa sem tecido nenhum. Fui no notebook e imprimi  as imagens do robe de algodão e dias depois voltei à loja de tecido e com o tecido na mão e a referência na outra, disse pra vendedora: "É este! Quero 4 metros e meio!" Decidi que se era pra ser um robe a l'anglaise, ele seria ao modo original inglês: em algodão!


Este foi o robe que usei como referência pra meu traje. 
Abaixo, ele em duas versões: com anágua do mesmo tecido do vestido (e neckerchief) 
e com anágua branca (ou beginha?).

 
  
 Impressionante não? Mais de 200 anos depois, estampas que 
seguem a mesma idéia de design! 
A da direita é a que comprei, um algodão mais fino e com estampa mais miúda que o tecido antigo.


Um pouco do do processo:
Uma das características do robe a l'anglaise é este recorte na parte de trás do corpete e a saia em pregas.


Vocês podem reparar no molde que eu fiz, que marquei todas as preguinhas da saia.
Abaixo, algumas fotos. Não reparem que como o algodão é um tecido natural, ele amassa mesmo!

Pregas da saia do vestido


Me lembrei de tirar foto do molde do corpete cortado, mas esqueci de fotografar as mangas!



Detalhe das pregas na cava. No molde e depois de pronto.


Optei por ao invés de renda no punho, fazer este recorte seguindo o molde original.


                        Aqui o vestido quase pronto, faltando alguns acabamentos.
 

Fiz também um chapéuzinho! Queria que a copa ficasse bem baixinha, mas não foi desta vez! 


Peça finalizada
A anágua bege que estou usando não é a anágua verdadeira do traje. Eu esqueci a anágua de tricoline na minha outra casa. Tendo duas casas em dois Estados diferentes fica difícil pra carregar tudo pra lá e pra cá e tirar fotos. E foi isso mesmo que aconteceu, no ir e vir esqueci de trazer a anágua que é parte do traje, a anágua que verão nas fotos abaixo é uma anágua que fiz de teste para um panier. Mas ao menos vocês podem ter uma idéia do resultado final do vestido. E o sapato também pretendo encapá-lo com o tecido do vestido ou num outro tecido caindo pros tons da estampa.

Robe de Inspiração...

Meu Robe: na primeira foto, uso um necherchief branco ao redor dos ombros; na foto das costas, reparem que o vestido é um pouquinho mais longo atrás. Como esse robe é de inspiração do fim do século XVIII (1780-1790) a armação da saia é bem simples, usei um rump. Vocês vão notar uma diferença no caimento entre o robe acima (histórico) e o meu. É que meu tecido é bem mais fino que o tecido original por isso, cai mais leve.

Ah e eu prometo fazer um post sobre a história do Robe a L'Anglaise no século XVIII  ;-D
   
Considerações Finais
Este traje teve alguns erros que considero toleráveis por ser meu primeiro traje histórico.
Consegui riscar um Molde Histórico então o vestido tem praticamente um molde original de época.
Semelhança dos tecidos: assumi um risco de criar um traje com estampa "moderna".
Preciso melhorar a parte de trás. Queria que tivesse ficado um pouco mais "bicudo". Isso não foi defeito no molde, fui eu quem errou a mão na hora de costurar.
Como comentei no post anterior, tive um pouco de dificuldade nas medidas do corpete. Tive que adaptá-lo às minhas medidas e acho que ele ficou um pouco curto e justo em algumas áreas. Também queria que tivesse ficado com o decote mais profundo.
Foi a primeira vez que fiz um traje de época pra mim e não pra um manequim! E fiz sozinha, sem a ajuda dos colegas de sala de aula de figurino. Então agora me sinto bem mais motivada em fazer outros. Fazer moldes é uma coisa (já consegui fazer vários moldes de época) mas fazer o molde virar roupa é outra coisa, exige tempo e dedicação.


9 comentários:

  1. Adorei o resultado final, e a semelhança do vestido é impressionante!

    E compartilho totalmente das considerações finais porque pensei o mesmo sobre o meu traje, mas me faz ter mais certeza de que quando somos nós que pesquisamos e fazemos vemos defeitos que outros não veem. Eu mesma não reparei na ponta na parte de trás ou no caimento xD

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    Respostas
    1. Mas é assim mesmo Ju Lee, os primeiros vão sair com "defeitinhos" que considero toleráveis porque são moldes de outra época, fora da nossa realidade habitual. Eu quebrei a cabeça pra caramba tanto no molde quanto durante o processo. Então, Mas acho que nem vale a pena se estressar muito com os defeitos, só com o tempo a gente vai pegando a prática, como em tudo nesta vida. ;)

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  2. Ficou maravilhoso Sana :)ficou muito bom mesmo,imagine os próximos,arrasou!
    Adorei as fotos hehehe

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  3. Genial... Simplesmente um trabalho genial!

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NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥