domingo, 9 de agosto de 2015

As Sufragistas e a Moda como ferramenta política

No post anterior, falamos sobre a “Moda Alternativa” usada por mulheres que rompiam padrões sociais no século XIX. E tanto essas mulheres quanto a roupa que elas usavam foram precursoras do que viria a ser um novo comportamento feminino frente à sociedade no século seguinte. O acesso ao trabalho quanto a educação deram à elas a necessidade de se sentirem representadas politicamente e o voto era o meio delas conseguirem essa representação. Uma luta que se travou por quase um século, através de movimentos feministas que foram, no fim do século XIX, chamados de Movimento das Sufragistas.
Tem sido dito que a forma como você se veste diz muito sobre o que você acredita. Os exemplos a seguir mostram a Moda como poderosa ferramenta política que interage com questões importantes da sociedade.


As Sufragistas

A luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres sempre existiu, pelo menos desde a antiguidade clássica. Mas as mulheres sempre foram de alguma forma caladas, queimadas ou decapitadas. No começo do século XIX, à medida que mais mulheres eram alfabetizadas e frequentavam universidades, passaram querer intervir na esfera pública.

A lei dizia que "pessoas do sexo masculino" podiam votar, o que excluía mulheres de sua cidadania. Muitas delas já tinham cursos superiores e a educação as fazia conscientes de um desejo de lutar por seus direitos políticos e sociais, assim, em 1848, foi criado em Nova Iorque o National Woman Suffrage Association (NWSA), primeiro movimento feminista organizado pelo direito ao voto feminino. A consciência "feminista" sobre cidadania política plena para as mulheres, tinha uma de suas raízes na Reivindicação dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicado em 1792. 




Os homens que eram contra o direito da mulher ao voto, diziam que o lugar delas era em casa, que elas eram ignorantes e não saberiam votar ou que a presença delas no parlamento seria a ruína da nação, já que elas não eram capazes de entender sobre política.
Em 1906, o jornal Daily Mail, cunha o termo “suffragette” como uma maneira depreciativa de descrever as mulheres mais militantes.
Como citamos no
post anterior, as mulheres queriam o direito de usar calças, tinham o desejo de trabalhar fora, e a ideia masculina de que feministas eram mulheres feias ou solteironas, são observados nos cartoons abaixo, como uma forma de zombar das Sufragistas.

"Ninguém me ama, acho que serei uma suffragette" - a garotinha veste calças.
"O lugar da mulher é na casa dela" - aponta um rapaz à garota.
"Origem e desenvolvimento de uma Suffragette. Aos 15 uma mimadinha; aos 20 uma coquete; aos 40 ainda não se casou! E aos 50, uma suffragette."


"O que eu faria com as sufragistas" - uma mulher presa na cadeira
"A mulher masculina" - critica a moda alternativa da época, que era o uso de camisa e paletó.
A sufragista no palanque é desenhada como uma mulher muito feia.
Abaixo, um homem se torna "mãe"; "Todo mundo trabalha menos a mãe: ela é uma suffragette. Quero votar mas minha esposa não deixa." e por fim, um cartoon escrito: "Dia da eleição" - a mulher sai de casa e o homem cuida de duas crianças ao mesmo tempo.

Sufragistas nas ruas panfletando ou fazendo campanha pelo voto feminino, elas acreditavam que a política precisava levar em conta os direitos das mulheres na sociedade.

A Moda como ferramenta política
Durante todo o século XIX, as feministas lutaram por roupas mais práticas, leves e funcionais. Por terem ousado vestir calças, eram agredidas na rua, chamadas de lésbicas e feias. Mas chegou um ponto que a geração feminista seguinte percebeu que eram julgadas demais pelo visual. Assim, resolveram mudar as regras do jogo: iriam vestir roupas elegantes justamente pra chocar e mostrar que elas não eram nada do que eles diziam e eram sim, também, mulheres muito bem vestidas!

Cansadas de não serem levadas à serio, as feministas dão um golpe (de estilo), passam a usar roupas elegantes pra bater de frente com os críticos que diziam que elas eram mulheres feias e mal vestidas.


Mas a roupa delas não era como a roupa das outras mulheres, elas fizeram escolhas deliberadas. A frase/slogan “Give Women Votes” (dê às mulheres o voto), foi a referência. Elas usaram as iniciais da frase associadas com cores: G (green), W (white) e V (violet). Assim, verde, branco e violeta seriam as cores da luta!

Roxo além de uma cor real, “o sangue real que corre nas veias de cada sufragista” era liberdade e dignidade; branco era a pureza na vida privada e pública; e verde, a esperança.
Usavam broches com estas cores ou jóias com pedras preciosas como ametista, pedra da lua ou esmeralda. A faixa que elas ostentavam no corpo também era tricolor. Assim, uma mulher reconhecia a outra na rua como parceira quando ambas ostentassem acessórios nos tons especificados.
As cores escuras nos trajes, quando usados, era pra simbolizar a sua seriedade de seus propósitos.



Exemplos de broches e jóias com as cores da luta pelo sufrágio.

Lojas de departamentos
Com seus trajes “alternativos” de luta, que identificavam umas às outras na rua, as sufragistas precisavam de um lugar para conversar sobre feminismo e debater suas ideias sobre seus direitos políticos. É aqui que entram as lojas de departamento.

Gordon Selfridge, proprietário da Selfridges, fundou sua loja em 1909 quando o movimento sufragista estava se tornando sucesso em Londres e o metrô trazia senhoras respeitáveis à cidade. Fazer compras era uma das poucas atividades que as mulheres podiam fazer fora de casa, percebendo isso, Selfridges abriu um café no topo do prédio da loja e instalou banheiros. Assim, as mulheres podiam passar o dia reunidas lá, conversando (e comprando).

O Sr. Selfridge era um importante apoiador do movimento feminista. Ele sabia que mulheres independentes seriam suas melhores clientes! As sufragistas se reuniam na loja e esta oferecia à elas as roupas necessárias para luta. Tudo a preços moderados.


Anúncios: "Selfridges apóia as Suffragettes". No texto é dito que já está à venda "o mais poderoso símbolo da emancipação feminina: o batom vermelho!"
À direita: "Itens interessantes de várias sessões e algumas nas Cores do Movimento."

O ano de 1912 foi o momento de virada para as Sufragistas britânicas: elas adotaram práticas mais violentas como se acorrentarem em grades, quebrarem vidraças de lojas que não apoiavam a causa, colocarem fogo em caixas de correio e até mesmo detonar bombas. O governo as espionava. Muitas foram presas. Na cadeia, algumas chegaram a fazer greve de fome.

Clique para aumentar a imagem.

"Mulheres trazem eleitores ao mundo. Deixem-nas votarem"

"Pedir liberdade para as mulheres não é um crime. 
Prisioneiras sufragistas não devem ser tratadas como criminosas"

 Sufragistas elegantemente vestidas

Organizadas por Alice Paul, em 1913, mais de 5 mil sufragistas marcharam em apoio ao voto feminino na capital americana. A marcha foi liderada por Inez Milholland Boissevain montada num cavalo branco. Grupos anti-feministas, irritados, tentaram perturbar o desfile em vários lugares.

Multidão hostil querendo parar o desfile. Mais de mil sufragistas foram hospitalizadas. Isso deu muita mídia e o governo precisou repensar a questão dos direitos femininos.



As marchas feministas continuaram mensalmente em cidades dos EUA e no Reino Unido nos anos seguintes.

Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em 1914, o movimento do sufrágio diminuiu e a guerra acabou sendo uma grande oportunidade para que as mulheres assumissem empregos masculinos tradicionais nas mais diversas áreas.
Num protesto em 1918, Alice Paul foi presa, fez greve de fome e foi alimentada na cadeia de forma forçada com ovos enfiados pelo seu nariz até ela vomitar sangue. Ela foi colocada no sanatório e queriam declará-la como insana. Seu médico declarou: “Coragem nas mulheres é constantemente confundida com insanidade”.


Panfleto faz alusão ao que Alice Paul (à direita) passou na cadeia

Após esse acontecimento com Alice Paul, ao fim da guerra, ainda em 1918, as mulheres ganharam os mesmos direitos políticos que os homens na Inglaterra e as americanas conseguiram o direito em 1920.

Em 1916, uma sufragista americana usa calças super justas e saia com fenda num dos desfiles de protesto.

No mesmo ano, Lady Florence Norman, anda na sua scooter.

Mas é importante lembrar que, após mais de um século de luta para garantir direitos políticos, as Sufragistas também lutavam pelo direito ao divórcio, ao direito à educação e à ter empregos que eram “masculinos” como o exercício da Medicina e Direito. O voto é de importância vital para alcançar amplos direitos das mulheres na esfera social.


Devido à violência racial e de gênero, haviam muitos linchamentos de pessoas negras. Assim, sufragistas como Ida Wells-Barnett (à esquerda), eram uma das feministas que acreditava que o direito ao voto era uma forma de lutar por uma representação política dos negros.

Acho que podemos aprender muito com as sufragistas e quem sabe a partir de agora, olharmos o voto, a política com outros olhos, pois diz respeito também à nossa posição como mulheres na sociedade. A luta delas não foi à toa, afinal, abriram tantas portas para nós no século XX...


Mais sobre:
Para saber sobre as sufragistas no Brasil, recomendo [este artigo].

Filme a ser lançado:
Sufragette. Com Carey Mulligan, Meryl Streep e Helena Bonham Carter.
"Não queremos ser infratoras das leis. Nós queremos fazer as leis!"



Em 2014, o filme Mary Poppins fez 50 anos! E não é que a mãe das crianças era uma suffragette? 





Artigo postado originalmente no site Moda de Subculturas

6 comentários:

  1. Achei seu post maravilhoso. *_* se continuar escrevendo sobre essas coisas continuarei aparecendo. Beijos!

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  2. Meu Deus que post perfeito! Amei!! O texto está lindo e essas imagens... nossa... são incríveis. Belíssima dica de filme também. Parabéns!!

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  3. Lágrimas escorrendo aqui...muito obrigada!!!

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  4. Todo meu repeito e admiração pelas suffragettes! Esse artigo arrancou lágrimas dos meus olhos. Não tenho palavras para dizer o quanto sou grata por ter tido acesso a esse panorama histórico-social da história feminina. Meus mais sinceros parabéns pelo seu trabalho. Seu blog me inspira, e por isso estou sempre por aqui.

    Beijos,
    Rafaella.
    http://imperioretro.blogspot.com

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  5. Eu precisava saber muito, com muita urgência, onde você conseguiu as imagens para o seu artigo, porque eu preciso fazer um projeto com fonte primária e queria utilizar os panfletos, só que a professora só aceita se for de uma fonte confiável.

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    Respostas
    1. Oi Anônimo, eu peguei em busca no google imagens mesmo, não anotei exatamente quais sites. As montagens (que tem várias fotos juntas) fui eu quem fiz.
      Uma coisa que pode te ajudar a achar é ir no google imagens e onde tem o desenho da máquina fotográfica, upar a imagem lá, aqui: https://www.google.com.br/imghp?hl=pt-PT&gws_rd=ssl
      não é garantia que aches a fonte primária, mas vai achar todos que a publicaram e ver qual se adapta ao que precisa.
      Mas pode ter certeza que minha pesquisa é confiável, foi bem extensa e dedicada, mas nome do autor das fotos ou publicações fico te devendo. ;)

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NOTA AOS LEITORES


Olá, tudo bem?
Fico feliz que tenha chegado até aqui! Infelizmente não consigo responder todos os leitores com devida atenção. Me perguntam sobre livros que uso nos textos estão, eles listados neste link: https://modahistorica.blogspot.com.br/p/livros.html

Alguns textos foram escritos entre 2009 e 2013, num período que eu não anotei as fontes, por isso eles não as tem. Portanto, quem me escreve cobrando as fontes destes artigos, espero que compreendam que não posso colocar uma fonte que não lembro ao certo/exatamente qual foi, indicando algo errado. MAS os livros que uso estão no já citado link - pra quem quiser ir atrás deles. Sei que professores e orientadores lhes cobram fontes e nada melhor que ler livros pra adquiri-las.


A quantidade de emails e comentários é grande e soaria repetitivo e cansativo eu responder isso a um por um dos leitores. Gostaria que essa cobrança que às vezes vem como crítica, ficasse mais amena através da compreensão, pois quando comecei o blog não sabia que se tornaria tão grande e que viraria referência no Brasil.
Agradeço a compreensão (e os elogios ao blog).
Sana ♥